segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Entrevista com o Prof. Antonio Nunes!




O Prêmio Elita Ferreira é uma honraria concedida pela Academia Pernambucana de Letras destinada à produção em literatura para o publico infantil. Engenheiro e Professor Universitário, Antonio Nunes foi agraciado nas premiações relativas a 2008 e 2009 com os Livros: “O aprendiz de Don Juan” e “A visão do mundo de um cãozinho de estimação”.  Nesta entrevista exclusiva, o autor fala de educação, literatura, criatividade e sobre uma nova ótica de produção editorial à margem do mercado tradicional.






-Prof. Nunes, como um Engenheiro e Professor Universitário acabou se tornando também um escritor?
Rapaz, o primeiro registro de escrito meu datilografado (pela expressão já sabe que faz um bom tempo, não?) é de 1979. Eu tinha 9 anos de idade. Acho que o escritor é que se tornou engenheiro e professor universitário. Em verdade, houve um período em que me dediquei com mais afinco à engenharia e à carreira universitária. Mas, sabe com é, coisa latente é assim, um dia eclode e não deu outra… Desde então, a escrita (a literatura como um todo) vem ganhando cada vez mais espaço em minha vida pessoal e, quem sabe, se torne mesmo uma atividade profissional.
-Existe algum elemento em comum nas suas histórias?
Dizem que tudo o que um escritor é coloca no papel, mas que reflexo de sua percepção do mundo que o cerca, está recheado de impressões e de memórias pessoais. Comigo, no tocante aos contos infantis, creio que isso acontece. Quem leu as minhas histórias diz que elas trazem nas entrelinhas sempre um quê filosófico, que não são exatamente contos exclusivamente para crianças. Bom, como este comentário já se repetiu algumas vezes, creio que seja bem verdadeiro. Quanto aos assuntos tratados, estes são os mais variados. Acredito que a fonte de inspiração ainda tenha bons frutos a oferecer…



-Você é considerado pela crítica um contista revelação, o que sua produção textual inclui além da produção acadêmica e da literatura infantil?
Além dos contos, maior parte de minha produção textual (se puder me definir como escritor, digo que sou essencialmente contista), já escrevi algumas novelas (romances curtos ou contos longos, como dizem por aí). Uma destas novelas (Gênesis – uma história de amor e ciência…) recebeu menção honrosa na categoria ficção pela Academia Pernambucana de Letras em 2009. Como não podia deixar de ser, eventualmente, faço incursões pela poesia, mas não me considero apto a ser cunhado de “poeta”.

-Qual a importância da presença da leitura no processo de formação? A família pode colaborar com a escola para presenciar o livro na vida dos estudantes?
Sempre digo aos meus alunos que existem dois processos para a mudança de comportamento, de valores, de posicionamento diante do mundo e da própria realidade. O primeiro é a exclusão, que te força a comparar o teu ser e estar com o do grupo social no qual você está ou pretende estar inserido. Esse caminho é duro e nem todos conseguem alcançá-lo. Já o outro, que depende exclusivamente de você e que ninguém pode negar, é a educação, a leitura, pois é independente das demais pessoas. O primeiro é uma mudança promovida de fora para dentro, enquanto a segunda é uma mudança de dentro para fora. Me entende? Nesse processo a família é de fundamental importância, incentivando, presenteando com leituras, proporcionando experiências desta natureza. Pode ser com um gibi, um livro paradidático, jornais  ou mesmo com clássicos da literatura. O importante é ter acesso, desde cedo, à leitura.

-O Brasil está desenvolvendo o Programa de Alfabetização na Idade Certa por culpa de uma deficiência no acompanhamento e avaliação de conhecimento do ensino público. Isso vai atuar na parcela da população jovem que passou pela escola e não aprendeu a ler. Mas as pessoas que mesmo sabendo ler e não lêem constituem um outro problema que é o analfabetismo instrumental. Para este outro analfabetismo deveria haver também um projeto de estímulo a leitura?
Claro que sim. Há uma máxima que diz o seguinte: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê!”. Se não sabemos ler bem, e isso inclui interpretar além do escrito (um livro, um jornal, um anuncio de outdoor, um contrato etc.), compreendê-lo por completo, perdemos muito de nossa capacidade de perceber o mundo ao nosso redor e de nos colocarmos diante dele, não é verdade?Algum tempo atrás cheguei a escrever um texto para o Programa Literatura para Todos, do Ministério da Educação, destinado a sistema nacional de alfabetização de jovens e adultos, mas os muitos afazeres do dia a dia acabaram por não permitir que concluísse a obra a tempo do certame existente à época. Para quem vive na terra de Paulo Freire e já bebeu de suas ideias, convém relembrar que o aprendizado é forma de construir a própria vida.




-Quais os autores nacionais e estrangeiros são referenciais de boa leitura para você?
Entre os brasileiros tenho como preferidos o Moacyr Scliar (que considero o maior escritor vivo de nosso país – e que assim permaneça por muitos e muitos anos, nos brindando sempre com obras-primas), o mestre Machado de Assis e o Rubem Braga, com suas maravilhosas crônicas. Entre os estrangeiros, tenho predileção pelos contistas russos (Tchekov, Tolstoi e Gorki), os franceses (entre eles o incrível Maupassant) e os italianos (Moravia, Pirandelo, Primo Levi e Calvino – embora cubano de nascimento este último). Leio muito e de tudo, por insistência de um bom amigo tenho descoberto no original contos de escritores ingleses maravilhosos (Munro – Saki, Wells, Poe, Dickens e Kippling, dentre outros). Ademais já travei contato com contistas excelentes de muitas outras origens (Kawabata, Lugones, Bashev Singer, Onetti etc.), além dos clássicos dos contos infantis, como: os irmãos Grimm, Andersen, Monteiro Lobato e muitos mais.

-Você acha que um autor tem sempre altos e baixos ou isso é apenas uma questão da maneira como o público repercute suas opiniões sobre as obras?
A questão é que sempre temos períodos mais produtivos e outros menos, seja na quantidade, seja na qualidade dos escritos. Creio que isso acontece com todas as atividades profissionais. Acontece também que a palavra escrita pode ser recebida, interpretada e avaliada. Alem do mais, uma vez que levamos um texto ao público, ele já não será mais nosso, passará por novas apropriações. Ganha vida independente, pois muitas vezes, conseguem apreender algo que o escritor jamais imaginou ou lhe passou pela cabeça conscientemente. Ah, o inconsciente! Daria várias entrevistas este tema…



-Como é seu processo criativo? Qual o gatilho que deflagra a geração de um livro?
Sabe que sinceramente não sei! Pode ser um fato presenciado, que ouvi contar, uma palavra que me soa de outra forma… É uma verdadeira bala perdida (desculpem-me o trocadilho) e que acerta o alvo certo. Em resumo, atento ou não para as coisas do cotidiano, os motes, as inspirações surgem a qualquer momento e local, por isso é sempre bom ter papel e lápis à mão. Tenho um banco de planos repleto em meu computador, um dia as histórias nascem… Adormecem por um período (ou não) e depois ganham vida… Às vezes me acordo no meio da noite e tenho aquela compulsão em escrever. Não penso muito no que escrevo e, quando me dou conta, já está lá. Na maioria das vezes, quase pronto. Gosto de manuscrever (pois, para mim, assim as ideias fluem melhor, mais rápido) e depois lapido o escrito enquanto o digito.

- A pergunta a seguir pode parecer uma saia justa, então se não achar conveniente pode não respondê-la,ok? Ao contrário do que ocorre em algumas casas editorias, a Editora Bagaço permitiu que você como escritor pudesse escolher o ilustrador dos seus livros. Sabendo que Recife é uma capital repleta de artistas talentosos o que o levou a escolher como ilustrador o quadrinista Carlos Braga?
O bom e talentoso amigo Braga Câmara foi um achado. Literalmente. Caminhava pelas ruas do Recife Antigo quando conheci alguns de seus trabalhos na pintura. Achei que o traço dele se encaixava no que buscava para complementar os meus textos. Conheci primeiro a esposa dele, Tatiana, sua maior incentivadora, depois ele próprio. Daí em diante a coisa fluiu. Não me passa pela cabeça em ter outro ilustrador para as minhas histórias. Dizem que ele interpreta como ninguém os meus textos. Às vezes sou eu quem põe texto nos desenhos dele. E a coisa vai funcionando muito bem, obrigado. Nos tornamos parceiros desde aquele dia  e desejamos que seja infinitamente duradoura, quem sabe imorredoura esta dupla. Dizemos que nossos trabalhos se complementam. Quanto ao concurso da APL, submeti ao concurso literário o texto já ilustrado (embora apenas o texto tenha sido avaliado). Então como o livro já estava praticamente pronto, não haveria porque modificar ou buscar outras ilustrações.

- Como é receber um prêmio concedido pela Academia Pernambucana de Letras, uma das mais tradicionais instituições culturais do país?
Ser premiado, seja pela APL ou em outro certame, é sempre uma honra, um incentivo e também uma responsabilidade. Pois passamos a ser vistos com outros olhos, certamente com maiores exigências. E isso é bom, pois nunca  há sempre novos olhares a nos orientar em outras direções que não havíamos percebido, novas experiências podem surgir e, desta maneira, novos aprendizados.



- Ultimamente não é necessário trabalhar sua produção literária por meio de casas editoriais no eixo Rio-São Paulo, para ver resultados de qualidade, as novas tecnologias facilitaram a impressão e divulgação, isto é uma maneira de abrir espaço para a produção literária no Brasil?
Por um lado, podemos dizer que sim (a internet tem um inimaginável poder de divulgação – o meu primeiro blog literário – contonton.blog.terra.com.br – alcançou mais de 120 mil acessos em apenas um ano!), mas como as grandes casas editoriais ainda estão no eixo sul-sudeste, nós aqui no nordeste temos que desprender um esforço imenso para levar o nosso trabalho ao grande público. Em primeiro lugar em uma relação de escala. Lá há um número muito maior de consumidores (em números absolutos e em poder aquisitivo) para nossa arte, o que por si só já traz grandes vantagens em termos de custo e de tiragem. Costumo dizer que quem não tem um bom agente literário estando em nossas terras nordestinas, sempre vai ter dificuldades de ser percebido, inclusive pela mídia nacional. Que bom que o Raimundo Carreiro acaba de ser premiado na 3ª edição do Premio São Paulo de Literatura. Quem sabe os grandes editores renovem seus olhares ao nordeste para garimparem novos valores na literatura?!? As novas tecnologias de pequenas tiragens também abrem novas portas… este tema dá uma outra entrevista enorme.

- Professor Nunes, gostaria de agradecer sua disponibilidade e atenção e aproveito para parabenizá-lo pela premiação que vem para merecidamente reconhecer seu trabalho e seu esforço criativo dentro do rico cenário que é a produção literária nacional. O espaço é seu para suas considerações finais.
J.J, eu que agradeço a gentileza de seu interesse e disponibilidade em publicar esta entrevista. Parabenizo o seu Laboratório Espacial tão celebrado entre os aficcionados dos desenhos e dos quadrinhos. Que venham mais histórias com textos e ilustrações que se completam e que possamos juntos, escritores e ilustradores nordestinos, alçar novos e mais altos vôos. Receba meu abraço mais que cordial da terra do frevo e do maracatu. Até a próxima!
Prof. Antonio Nunes (Tonton) na internet:
Contos e Histórias de Tonton
Contos e Histórias de Tonton (atual)


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Astronauta de Maurício de Sousa por Danton & Marreiro


Por JJ Marreiro

Uma História em Quadrinhos começa com uma idéia, um elemento motivador. Em conversas com os roteiristas da equipe MSP, o Editor Sidney Gusman, responsável pelo planejamento e novos produtos editoriais da empresa imaginava fazer uma homenagem aos 50 anos de carreira do cartunista Maurício de Sousa. Ao invés de seguir o caminho tradicional, que seriam edições comemorativas com republicações ou especiais produzidos pelos artistas da casa, Sidney convidou artistas de diversos traços e estilos para que com sua própria linguagem fizessem HQs em homenagem ao cinqüentenário. Maurício aprovou a idéia de imediato e demonstrou um grande entusiasmo durante todo o processo de edição. O sucesso foi tamanho e a resposta tão positiva que logo foi engatilhada uma segunda edição.


Logo se estabeleceu uma expectativa sobre quem seriam os convocados desta segunda seleção de artistas. Os nomes foram revelados via Twitter causando um furor no fandom, pois até então apenas os artistas, Sidney e Maurício sabiam quem eram os convocados.



Conheci o Professor Ivan Carlo, que todos no meio dos quadrinhos conhecem por seu codinome Gian Danton, quando de uma visita dele de férias à minha cidade, Fortaleza. Na época eu trabalhava junto com Daniel Brandão nos cursos de Quadrinhos e Mangá. Estávamos no estúdio quando de repente o escritor-editor da celebrada revista Manticore toca a campainha. Ao chegar na cidade e visitar praias, pontos turísticos, shoppings, esses programas familiares, Gian parece ter sido acometido de uma curiosidade repentina: “onde está o pessoal dos quadrinhos daqui?”. Ele fuçou, pesquisou e encontrou o Estúdio do Daniel. Daí até se iniciarem as parcerias com os novos amigos do Ceará foi um pulo.



Fico feliz de ter desenvolvido algumas coisas ao lado de Gian que é um dos mais talentosos escritores de quadrinhos do Brasil…e obviamente ele não escreve apenas quadrinhos. Criamos alguns projetos em conjunto alguns deles ainda a caminho de ver a luz, a exemplo da tira O Camaleão, outros já devidamente iluminados como Os Problemas de Carlinhos, onde faço apenas o desenho.



No segundo álbum da série MSP, Sidney Gusman pensou em explorar melhor uma parte do que foi vislumbrado na primeira edição: o universo dos personagens de Maurício sob a ótica de outros artistas. Como Mozart Couto, Adriana Melo, Roger Cruz, interpretariam os personagens da turma. Que personagens eles gostariam de desenhar.


Com base nisso Gian e eu fomos convidados a trabalhar novamente em conjunto, desta vez sob a batuta do Maestro Gusman que regia a “sonoridade” afinada de mais 50 desenhistas sortudos. Minha alegria foi dupla ou tripla, pois trabalhar com amigos num projeto tão importante era muito mais do que eu poderia esperar.

Star Trek, Perry Rhodan, Dr. Who, Planet Comics, Strange Worlds, Flash Gordon, Buck Rogers já foram citados por mim inúmeras vezes nas matérias e divulgações relacionadas a esta produção, mas o fato é que, estes universos ficcionais encontraram morada fácil na minha memória e do Gian Danton.


O resultado dessa salada de influencias foi um Astronauta cujos elementos remontam a uma ficção científica retrô ou vintage. Após algumas tentativas iniciais, após o drama do peso da camisa, desvencilhamo-nos das complicações e saímos da experiência com um quadrinho que resulta da fusão de visões e possibilidades próprias de nossa ótica, mas que, creio eu, manteve-se fiel também à raiz plantada pelo Maurício quando da criação do personagem.



Aproveito para agradecer a todos que colaboraram direta ou indiretamente com minha participação nesse projeto Sidney, Maurício e Gian. Fernando, Allan e Walber com quem sempre converso sobre Ficção Científica e idéias malucas; Prof. Jesuíno um mestre e conseglieri;  a minha família que faz parte de um outro tipo de making of…o da vida. E como não pode faltar um agradecimento de ordem espiritual, à energia que permeia todos os seres vivos do universo.



No blog Roteiro de Quadrinhos você confere outro making of desta obra.