sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Surfando entre as Estrelas (por JJ Marreiro)





O SURF
A origem do Surf (que vem da palavra surface) está ligada aos antigos povos polinésios (no Sul do  Pacífico) e aos peruanos (nas Américas). A prática já foi ligada historicamente a atividades místicas, ao culto do mar e rituais de ordem espiritual, tornando-se importante elemento para a vida social enquanto promovia a conexão do homem com a natureza e propunha desafios de auto-superação. Tudo isso muito antes de se tornar um esporte mundialmente famoso.
O Surf requer mais que o equilíbrio sobre a prancha, requer a percepção do ritmo do mar, da velocidade do vento e das ondas, requer conhecimentos sensíveis sobre o entorno e sobre o seu eu, seu próprio ritmo, suas próprias capacidades físicas, o reconhecimento de seus próprios limites e a audácia de testar esses limites.

A PRATA
Elemento químico de símbolo Ag, que vem de Argentum, palavra latina derivada de um termo em sânscrito que significa branco e brilhante. A prata está ligada à cadeia simbólica da lua e da água (que por conseguinte está quitessencialmente ligada ao surf). Ao contrário do vigor masculino do ouro, a prata possui uma conexão com o que é feminino, sutil e com a dignidade da realeza e à purificação divina. Contraditoriamente a prata, que representa a riqueza provoca a cobiça humana o que lhe confere uma dinâmica dentro de seu próprio significado.











Um Surfista Prateado
Ao propor um arauto para Galactus, o Devorador de Mundos, Jack Kirby veio com a ideia de um explorador espacial seminu que navegava as ondas de energias cósmicas, ventos solares, gases, campos magnéticos, plasmas e radiações espaciais sobre uma placa de bordas arredondadas. Enquanto sua nudez demonstra fragilidade, a cor prateada de todo seu corpo traz consigo uma pureza que reflete sua alma — que não é vista a priori dado o aspecto alienígena que isso lhe confere.
A angústia que o Surfista Prateado traz consigo, isolado de sua terra natal, removido do convívio de sua amada, forçado a encontrar mundos inteiros que serão destruídos para saciar a fome de seu Mestre, reflete bem a dicotomia da própria prata, que sob alguns formatos torna-se tóxica (como o pó de prata) e sob outros (nitrato de prata) possuem usos terapêuticos.

Enquanto o traço de Jack Kirby apresenta um Surfista robusto e audacioso, John Buscema o retrata de modo delicado, quase feminino. Notadamente nesta fase vemos a contradição entre os impressionantes níveis de poder do herói — capaz de ombrear os deuses mais poderosos de Asgard— e sua profunda angústia e tormento.

O gênero dos super-heróis tem sido associado a personagens bidimensionais, sem profundidade e sem drama, está é uma leitura comum e uma percepção válida em uma primeira análise de seus aspectos gerais, no entanto, desde o Spirit de Will Eisner, passando por Homem-Aranha de Lee & Ditko e culminando com Watchmen de Allan Moore os Super-Heróis (ou heróis uniformizados) tem mostrado que sua profundidade depende não do seu caráter constitutivo, mas da abordagem de seus autores. O Surfista Prateado trás para o gênero uma riqueza temática e uma dicotomia que representavam muito bem os agitados anos da década de 1960 com suas lutas por direitos civis, suas guerras, movimentos populares e regimes de exceção. A amplitude de tramas e conflitos que se abrem ante o Surfista Prateado são de certo modo um oceano (ou um universo) de possibilidades para personagem, autores e leitores.
 










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