segunda-feira, 20 de junho de 2022

Cavaleiro das Trevas (uma resenha crítica de Gian Danton)













PARTE 01 ( Por Gian Danton)

No início da década de 1980, Frank Miller era o grande nome dos quadrinhos americanos. Depois de salvar a revista do Demolidor do cancelamento, transformando-a num campeão de vendas, ele foi contratado para a DC Comics na qualidade de astro.

Seu primeiro trabalho para a editora, Ronin, foi aplaudido pela crítica, fez sucesso e abriu as portas para a invasão dos mangás, mas não chegou a ser algo bombástico. O grande sucesso mesmo viria com a minissérie Batman - Cavaleiro das Trevas, de 1986 (veja no box alguns fatos marcantes deste ano).















Cavaleiro das Trevas foi um arrasa-quarteirão que mudaria para sempre a história dos quadrinhos de super-heróis, a começar pelo formato de luxo em que foi lançado, chamando atenção dos leitores adultos e da imprensa.

A história se passa em um futuro em que os super-heróis foram proibidos. Aposentado após a morte de seu parceiro Robin, Bruce Wayne é um homem amargurado pelos fantasmas do passado e pela percepção de que a cidade que protegeu durante anos está se transformando em um completo caos de violência urbana.

Sua volta à ação marca também o retorno dos vilões Duas Caras e Coringa e a tensão com o Super-Homem, o único herói com autorização para agir.

Miller foi revolucionário em tudo, a começar pela forma de contar a história, usando e abusando das elipses. Elipses são pulos na narrativa, partes não mostradas pelo quadrinista e que são completadas pelo leitor. Os quadrinhos usam as elipses o tempo todo: o personagem se levanta da cadeira, no quadro seguinte está na porta de casa: todo o trajeto entre uma ação e outra é completado pela imaginação do leitor. Miller levou o recurso a patamares nunca explorados em especial na sequência em que o Batman volta à ação: o leitor nunca vê o herói, e sim as consequências de sua ação. Quando ele finalmente surge é numa grandiosa Splash Page, de enorme impacto. (nota: Splash Page é uma página onde o quadrinho toma a página inteira).

Outra revolução de Miller foi introduzir quadros televisivos como elementos narrativos. Após vermos Batman pela primeira vez, por exemplo, as telas mostram pessoas comuns comentando sua aparição. Além disso, a narrativa televisiva muitas vezes ajudando o leitor a entender as elipses – exemplo disso é a mulher cuja bolsa é revistada pela gangue mutante e que sai feliz ao descobrir que não foi roubada – na sequência, uma jornalista informa: “Mulher explode numa estação de metrô! Noticiário completo às onze...”.

As telas de televisão também funcionam como um acréscimo de aprofundamento ao mostrar debates sobre a ação do herói. É nesses inserts que Miller irá colocar uma das questões mais interessantes da obra: seriam os vilões uma consequência dos super-heróis? Ou seria o contrário? A obra não dá respostas fáceis, deixando muito mais perguntas que certezas.

Outra inovação de Miller foi mostrar o Batman como alguém que capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos – inclusive usar uma criança como aliada no combate ao crime ou torturar um bandido para conseguir uma informação. Maníaco? Visionário? Herói? Vilão? Junto com A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, Cavaleiro das Trevas transformou o Batman em um herói tridimensional, um dos mais complexos do universo DC.












Miller continuou sua abordagem sobre o personagem em uma outra série, Batman Ano Um, com desenhos de David Mazzuchelli, em que contava os primeiros anos do herói. Como resultado, Batman se tornou o herói mais popular da época, uma verdadeira mania, com várias revistas derivadas e especiais.

No Brasil, Cavaleiro das Trevas foi a obra que inaugurou a era das Graphic Novels. O sucesso da série fez com que a Abril lançasse várias outras minisséries de luxo e até uma coleção, Graphic Novel, apenas com histórias fechadas, em papel couchê.



PARTE 02 (por JJ Marreiro) 

Originalmente publicada em  fevereiro de 1986 como uma mini-série em quatro partes. Chegou ao Brasil em março/abril de 1987. Em 1988 a Abril lança a versão encadernada (capa cartão). Em 1989 chega a segunda edição da versão encadernada ainda pela Ed Abril. 

Sempre referenciada ao lado de Watchmen e Miracleman, O Cavaleiro das Trevas, marca um tratamento sóbrio do gênero dos heróis uniformizados. A trama é bem construída, bem pensada, cada painel possui um sentido de ser e nenhuma palavra é desperdiçada, desde as onomatopeias às gírias empregadas pelos personagem, tudo em Cavaleiro das Trevas foi milimetricamente medido e cada tom de cor somou ao discurso noir ao clima distópico de uma metrópole sitiada pela violência urbana. 

As transições de quadros são fabulosas e favorecem uma experiência de leitura rica e envolvente. As combinações entre palavra e imagem completam-se para gerar uma terceira compreensão que transcende tanto a palavra quanto a imagem. Fica patente o esmero na elaboração desta mini-série: um traço numa estilização harmônica com a construção narrativa, uma arte-final coesa e objetiva, cores que colaboram na ambientação e na condição emocional da história. Uma trama lógica, coesa, com começo meio e fim numa abordagem que aprofunda o gênero e o trata com respeito. Bons diálogos e ótimas passagens de ação. Uma obra que possui conteúdo e superfície irretocáveis isto é mais do que se pode dizer de muitas obras (em qualquer manifestação artística).



DK2: The Dark Knight Strikes Again, a controversa mini-série de três edições que continua a saga do Morcego não-tão-aposentado foi lançada em dezembro de 2001. A mesma equipe criativa retorna implementando um aspecto visual diferente, experimental (no design e nas cores) o que desagradou a grande maioria dos fãs. O traço de Frank Miller mais cartunizado, menos refinado, um redesign exótico de personagens e as cores supersaturadas com uso exagerado de efeitos chamam mais atenção que a trama. Nem de longe esta "continuação" se alinha com o nível de qualidade técnica e filosófica da obra original. Citando Marcelo Cassaro, premiado roteirista e editor brasileiro: "Miller fez DK2 para que não houvesse um terceiro". A edição brasileira saiu em 2002. 

DKIII - Cavaleiro das Trevas III, mesmo com todas as críticas ao DK2, a máquina de dinheiro da DC Comics sabia que ainda havia muito a se explorar da obra original de Miller e já estava capitalizando em desenhos animados, estatuetas e infinitos colecionáveis baseados no trabalho original de Miller. Uma prova da baixíssima aceitação pública de DK2 é a inexistência de produtos agregados e esta mini-série. A Terceira parte chegou em 2016.E depois do desastre da parte 2, a editora cercou Miller de talentos para evitar outro fiasco. Para o desenho Andy Kubert, cujo traço é um dos mais potentes da atualidade e cuja narrativa segue a rica e criativa linha estabelecida pelo seu pai, o astro da era de prata dos quadrinhos, Joe Kubert. E, encarregado de evitar novos devaneios oníricos desconexos de Miller, um dos roteiristas TOP da DC: Brian Azarello. Embora o resultado seja visívelmente superior ao DK2 ainda fica devendo muito à potencia da obra original. Não é um quadrinho ruim de ler, aliás seria um razoável material para um título de linha. No entanto, para ser uma sequencia de Cavaleiro das Trevas o resultado é sem vivacidade, sem encanto, sem grandes recursos narrativos e absolutamente ausente de inspiração. A trama centrada numa invasão da Terra por Kandorianos, os habitantes da cidade engarrafada de Krypton. Uma falha gritante é ausência de protagonismo de Batman, isto sim: um crime.

Curiosamente, cada edição de DKIII é acompanhada por um mini-comic (uma revista fininha em formatinho) com capas e parte do material interno feito por Frank Miller. Isto deveria ser uma ampliação do universo do Cavaleiro das Trevas, mas também não logra êxito ficando restrito a "mais do mesmo". Aliás, menos do mesmo, pois são histórias fracas, algumas porcamente desenhadas.

Depois de tantos produtos e subprodutos ligados ao universo do morcego imaginado por Frank Miller é difícil pensar que a DC vai parar por aí. Aparições deste universo já foram vistas nas revistas de linha e possivelmente ganhem novos subprodutos, versões, expansões, talvez uma saga reunindo todas as revistas da editora centradas no universo do Cavaleiro das Trevas, sabe-se lá. O certo é que a DC nunca vai largar esse osso.



Batman - The Dark Knight Returns (wikipedia)
Capas das edições em português de Batman Cavaleiro das Trevas (Guia dos Quadrinhos)
DKR Trintão (Batdeira)
PODCAST Confins do Universo: Cavaleiro das Trevas 30 anos (UniversoHQ.com) 
Cavaleiro das Trevas Edição Definitiva (review UniversoHQ)
DK2 (review UniversoHQ)


IDEIAS DE JECA TATU (blog de Gian Danton)

http://roteiroquadrinhos.blogspot.com/

http://laboratorioespacial.blogspot.com/2010/10/o-astronauta-de-mauricio-de-sousa-por.html

quinta-feira, 10 de março de 2022

THE BATMAN - O Batman que precisávamos? Sem Spoilers!


 Por Jacko e Daywid

Assistido o tão esperado filme de Matt Reeves sobre o homem morcego, trazendo Robert Pattinson como personagem principal. E devo confessar que tempos atrás quando vi a escolha, fui daqueles que tacou o pau, mas, depois de filmes como Mulher Maravilha e Aquaman, respirei fundo e pensei: calma. Vamos esperar pra ver algo pra poder criticar.
Foi a melhor coisa que fiz, esperar.




Muita gente critica o filme por ser longo demais, arrastado, que poderia ser menor e resolver as coisas mais fáceis e simples, mas não dá. Pelo contrário, se você viu o filme, viu que faltou tempo pra explicar muita coisa como por exemplo, fatos sobre o Charada que ficam mais explicados, mais detalhes sobre o Pinguim, coisas sobre as cenas finais que não tiveram explicação, que pra mim não é furo, foi escolha sobre o que apresentar, e tentar diminuir o tempo do filme.




A trama é cheia de mistérios, com elementos até então estranhos para nós fãs, como o Batman andando lado a lado com a polícia, sendo encarado por todos, menos pelo capitão Gordon, que é preciso ressaltar que Jeffrey Wright entrega um Jim Gordon sério, honesto, que acredita no Batman, e com um puta moral de poder até enfiar o dedo na cara do Morcegão, sem nem piscar. Me lembrou muito o Gordon de Batman Ano Um.

 



Outra personagem que ficou muito boa, e também remete a Batman Ano Um é Selina Kyle. Zoë Kravitz ficou tão bem no papel que nem precisa de roupa de couro, enfeites ou coisas do tipo, ela entrega uma Mulher Gato diferente de qualquer outra, que é ágil, rápida, boa de briga, esperta e bonita.



Um personagem pouco explorado por outro lado foi o Alfred, tendo Andy Serkis no papel, pouco se mostrou no filme, mas foi necessário quando surgiu.
O filme aborda coisas que outros não fizeram, como falar do passado da família Wayne, de ligações perigosas com o passado da cidade, as alianças que passam a assombrar o presente de Bruce Wayne,e é isso que dá o ar sombrio e sério de Bruce durante todo o filme.
O Charada por sua vez, deu um show a parte, mas eu diria que mais pelo ator que pelo personagem. Pois ficou faltando coisas sobre o personagens, detalhes não explicados, porém, Paul Dano foi perfeito na atuação.
Tivemos o Pinguim, que pra mim, assim como o Alfred, foi pouco explorado, mas é preciso dizer:
- Que PINGUIM É ESSE?
Colin Farrell, irreconhecível, dá um show de interpretação: é nojento, covarde, bobalhão, traidor, vingativo e chefão. O "Os" dele é responsável por uma das melhores e mais vibrantes cenas do filme, quando é perseguido pelo Batman no maravilhoso Batmóvel. um verdadeiro pega pega na cidade, com muita explosão, reviravoltas e um final de perseguição hilário.


O Batmóvel pra mim foi um dos melhores já feitos, porque se isso é uma adaptação das HQs, então também é possível fazer algo o mais parecido com as hqs possível certo?
E Reeves pensou assim, pois esse Batmóvel é muito mais próximo das HQs que seus anteriores.

Agora vamos falar do Batman.
Acho que chegou a hora de deixar essa história de Crepúsculo de lado, né?
Robert Pattinson entregou um dos melhores Batmans do cinema até hoje. Resgatou o Batman detetive, investigativo, porradeiro, violento, que não mata, que não precisa de amigos super poderosos nem de roupas especiais para evitar ser mordido por cães pra provar que pode entregar umas das melhores, senão a melhor,atuação do morcegão, para os cinemas.

Ele é rápido, violento, brutal, pouco apela pros seus apetrechos no cinto. Sua roupa é tática, flexível, pouco apresenta enchimentos, deixando-o mais natural e real possível.
- Ele não Ri! - Nem tem por que ou onde rir. Tudo no filme é melancólico, sombrio, triste, violento, não tem espaço para risadas, piadas, brincadeiras. Ele corre contra o tempo para derrotar o Charada, evitar novas mortes, resolver enigmas sobre seu passado que se revelam sórdidos e contradiz com o que ele mesmo pensa sobre ser o Batman.

O traje é perfeito, simples, diferente das armaduras e enchimentos dos outros filmes, e apresentou a melhor máscara, na minha opinião, já feita até hoje, onde mostra a abertura longa no queixo, deixando parte do rosto a mostra, com detalhes de couro que marcam sem parecer falso e dar aquele semblante sério e malvado que conhecemos. Até o elemento "sombra" usado nos olhos para deixar os olhos dele com o capuz mais sombrios, aqui foi dado ênfase, deixando claro que o Batman usa maquiagem pra esconder sua identidade, e não que usa e finge não usar. Até isso deixa tudo mais real, pois Pattinson sem máscara e com a maquiagem escorrendo, dá um ar de tristeza, e ao mesmo tempo de vingança, além de lembrar o Corvo.



Talvez, o único momento que me queixei sobre o filme foi sobre o Pattinson como Bruce Wayne, que fica longe daquele biotipo estilizado que temos na mente das HQs, até mesmo distante de Bale e Affleck, mesmo assim, com o passar do filme, acabei acostumando, e ele consegue provar que é bom também sem a máscara.

Um grande ponto positivo do filme é que, aqui, vemos um filme do Batman. Aqui ele não é coadjuvante, é o principal. Pattinson passa mais da metade do filme com a máscara, agindo como Batman, diferente dos outros filmes que abordam demais Bruce Wayne, até pra poder dar mais crédito ao ator, mostrar seu rosto e assim aumentar seus ganhos com sua imagem. Aqui, Batman é a estrela, e como falado em uma cena, Batman é a verdadeira face de Bruce Wayne.
Se o filme tem furos no roteiro, não parei pra ver isso, me atentei a história contada, aos personagens que nela estão, no Batman, no Pattinson, e apesar de ter ficado algumas coisas sem resposta, isso pra mim não desmereceu o filme. Precisarei ver d novo pra encontrar esses "furos".
Não dá pra esquecer as cenas finais no Arkhan, ou mesmo a cena pós crédito, que quebra a tradição dos atuais filmes e proporciona algo digno eu diria de, Ferris Bueller, lembra dele? Lembra de "Curtindo a Vida Adoidado"? Pois é.
The Batman é o filme que esperávamos e Zack Snyder não soube apresentar.
É o melhor até hoje?
No quesito porrada e investigação, sim.
No quesito "fiel as hqs", sim.
No quesito história, sim.
Personagens? Sim.
Então, "em que momento o filme é ruim", você pode até perguntar, mas só posso dizer que ainda estou procurando, porque não lembro uma cena que não tenha curtido, ou vibrado, ou até mesmo chorado.
Quando as coisas se invertem, e vingança passa a representar esperança, não consegui segurar as lágrimas.

THE BATMAN é O Batman que precisamos.


 



terça-feira, 8 de março de 2022

GUARDIÕES DA JUSTIÇA

 
Guardiões da Justiça é mais um exagero desesperado da Netflix de tentar atingir o sucesso de The Boyz.
 
Uma completa paródia da Liga da justiça, isso é claro, porém, a série é muito confusa, bagunçada, enche a tela de elementos e cores, causando mal estar. 
 
Apela pra violência tentando alcançar The Boyz, mas passa longe, e não consegue atingir a atmosfera que fingir oferecer, de anos 80 na série. Os elementos apresentados em nada remetem aos anos 80, a não ser a chamada da série, algumas cenas animadas, e mais nada. Erram até mesmo nos desenhos, pois poderiam ter tentado fazer algo mais próximo de Thundercats, Gi Joe, ou mesmo Transformers. Sim, eu sei que deve ser tudo "proposital", mas pra mim, o objetivo não foi alcançado.
 
 

 
GDJ beira o ridículo, com efeitos mal feitos, claramente feitos para serem mal feitos, com interpretações fracas e uso de animação para cenas de ação para assim evitar que os fracos atores e atrizes consigam piorar ainda mais a série. GDJ quase chega a ser tão ruim quanto O Legado de Júpiter, que só consegue ser pior por que tentou se levar a sério demais, ficando cansativa e monótona. enquanto GDJ foca em ser brega, exagerada, caricata e espalhafatosa, berrante e sem pudores.
 
 

 
Guardiões da Justiça foi criada por Adi Shankar, conhecido pela animação de Castlevania da Netflix, que também não é lá essas coisas, além de ter produzido obras como Dredd e O Grande Herói.
Traz um elenco de "desconhecidos", que atuam mal, parecendo não acreditar que aquilo ali seja real. A serie consegue chegar a ser tão bizarra como produções da Marvel dos anos 80 como Justiceiro ou o primeiro Quarteto Fantástico, que nunca saiu nem em VHS ou DVD oficialmente, ou tosqueiras como Os Mestres do Universo com Dolph Lundgren.
 

 
 
Pontos altos são os easter eggs de super heróis que aparecem, como paródias dos inimigos do Batman, ou mesmo a aparição de um boneco, clara alusão ao Ventríloquo, ou o que dizer da musica tema da serie Batman dos anos 60 na transição de cenas que aparece no último episódio.
 

 
 
No geral, a série é fraca, apelativa, exagerada, forçada e extremamente mal feita. Com um Batman fascista, um Superman de borracha que se perde em ciúmes e manipulação mental, uma mulher maravilha sedutora, um Aquaman idiota, um Shazam abestado e bem parecido com o Lotney "Preguiça" Fratelli, o deformado e abusado gigante dos Fratelli de Os Goonies, e uma Flash que não consegue usar todo seu poder e acaba sendo derrotada facilmente por ser bobinha demais.
 
 

 
A Netflix precisa aprender a fazer série original de Super Heróis o mais rápido possível, ou vai se tornar refém de Umbrella Academy como sendo a única produção boa feita pelo streaming vermelhinho da letra N.
 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

SURFANDO ENTRE AS ESTRELAS (porJJ Marreiro) repost

 



O SURF
A origem do Surf (que vem da palavra surface) está relacionada aos antigos povos polinésios (no Sul do  Pacífico) e aos peruanos (nas Américas). A prática já foi ligada historicamente a atividades místicas, ao culto do mar e rituais de ordem espiritual, tornando-se importante elemento para a vida social, enquanto promovia a conexão do homem com a natureza e propunha desafios de auto-superação. Tudo isso muito antes de se tornar um esporte mundialmente famoso.
O Surf requer mais que o equilíbrio sobre a prancha, requer a percepção do ritmo do mar, da velocidade do vento e das ondas, requer conhecimentos sensíveis sobre o entorno e sobre o seu eu, seu próprio ritmo, suas próprias capacidades físicas, o reconhecimento de seus próprios limites e a audácia de testar esses limites.

A PRATA
Elemento químico de símbolo Ag, que vem de Argentum, palavra latina derivada de um termo em sânscrito que significa branco e brilhante. A prata está ligada à cadeia simbólica da lua e da água (que por conseguinte está quitessencialmente ligada ao surf). Ao contrário do vigor masculino do ouro, a prata possui uma conexão com o que é feminino, sutil e com a dignidade da realeza e à purificação divina. Contraditoriamente a prata, que representa a riqueza provoca a cobiça humana o que lhe confere uma dinâmica dentro de seu próprio significado.











Um Surfista Prateado
Ao propor um arauto para Galactus, o Devorador de Mundos, Jack Kirby veio com a ideia de um explorador espacial seminu que navegava as ondas de energias cósmicas, ventos solares, gases, campos magnéticos, plasmas e radiações espaciais sobre uma placa de bordas arredondadas. Enquanto sua nudez demonstra fragilidade, a cor prateada de todo seu corpo traz consigo uma pureza que reflete sua alma — que não é vista a priori dado o aspecto alienígena que isso lhe confere.
A angústia que o Surfista Prateado traz consigo, isolado de sua terra natal, removido do convívio de sua amada, forçado a encontrar mundos inteiros que serão destruídos para saciar a fome de seu Mestre, reflete bem a dicotomia da própria prata, que sob alguns formatos torna-se tóxica (como o pó de prata) e sob outros (nitrato de prata) possuem usos terapêuticos.

Enquanto o traço de Jack Kirby apresenta um Surfista robusto e audacioso, John Buscema o retrata de modo delicado, quase feminino. Notadamente nesta fase vemos a contradição entre os impressionantes níveis de poder do herói — capaz de ombrear os deuses mais poderosos de Asgard— e sua profunda angústia e tormento.

O gênero dos super-heróis tem sido associado a personagens bidimensionais, sem profundidade e sem drama, está é uma leitura comum e uma percepção válida em uma primeira análise de seus aspectos gerais, no entanto, desde o Spirit de Will Eisner, passando por Homem-Aranha de Lee & Ditko e culminando com Watchmen de Allan Moore os Super-Heróis (ou heróis uniformizados) tem mostrado que sua profundidade depende não do seu caráter constitutivo, mas da abordagem de seus autores. O Surfista Prateado trás para o gênero uma riqueza temática e uma dicotomia que representavam muito bem os agitados anos da década de 1960 com suas lutas por direitos civis, suas guerras, movimentos populares e regimes de exceção. A amplitude de tramas e conflitos que se abrem ante o Surfista Prateado são de certo modo um oceano , ou melhor, um universo de possibilidades para personagem, autores e leitores.
 










MAIS:
 
 http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/12/surfista-prateado-o-heroi-filosofo-por.html




sábado, 4 de julho de 2020

SURFISTA PRATEADO: Amargo Regresso !















Na década de 1980, Stan Lee já estava aposentado dos quadrinhos. Mas voltava de tempos em tempos para escrever uma história de seu personagem predileto. E qual era seu personagem predileto? O Surfista Prateado.

Em 1982 ele e John Byrne (que a esta altura já era uma estrela de quadrinhos graças à sua passagem pelos X-men) se uniram para produzir uma revista única do herói, que acabava funcionando como canto do cisne para o personagem e fechava algumas pontas soltas.

Na HQ "Amargo Regresso", o Surfista, graças a uma invenção de Reed Richards, consegue finalmente vencer a barreira de Galactus e voltar para seu planeta Zenn-la. Mas há uma ressalva: se voltar para a Terra, ele ficará eternamente preso aqui.



Chegando lá ele descobre que seu planeta está arruinado graças à vingança de Galactus por seu arauto ter se voltado contra ele na Terra.

E Shalla Ball, sua amada, não está lá. Tudo leva a crer que uma garota que ele encontrou em uma das histórias da série clássica na década de 1960, é na verdade ela, hipnotizada por Mefisto.



É uma história deliciosa em todos os sentidos, num perfeito equilíbrio dos elementos que fizeram do Surfista um clássico. Há o herói amargurado e filosófico, as viradas no roteiro, surpreendentes, mas absolutamente plausíveis. E o texto de Lee parece ter melhorado com o tempo, tornando-se mais poético. Os desenhos de Byrne (que é co-autor da história), funcionam bem, embora a arte-final de Tom Palmer nem sempre consiga captar a sutileza que a história exija.

O grande momento da história é o final, triste, mas poético. Seria o final perfeito caso essa fosse a última história do personagem.



Aqui (no Brasil) essa história foi publicada na revista Heróis da TV 70 e foi um dos números que mais marcaram os fãs, em especial graças a essa HQ. Em tempo: a Abril descartou a capa original e usou uma imagem interna da história como capa. Ao meu ver um a decisão acertada. (Nota do Editor: Nos Estados Unidos, a Aventura "Escape-- to Terror" foi publicada no one shot Silver Surver #01, 1982).

(Nota do Editor: Para encerrar,uma curiosidade. Foi desta edição que saiu a arte de capa do LP (e posterior CD) do Guitarrista Joe Satriani. Os direitos de uso foram negociados entre o programador visual do disco e a Marvel, o autor do desenho, John Byrne, nunca viu um tostão do uso comercial desta arte).



MAIS:

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/12/surfista-prateado-o-heroi-filosofo-por.html

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Mulher Estupenda em ATAQUE FURTIVO








EXTRAS:
 
A Mulher-Estupenda surgiu por volta de 1998 como uma homenagem a Era de Ouro (e Prata) dos Quadrinhos. Suas primeiras publicações foram em fanzines (Manicomics, Heróis Forever, Clube de Heróis) e tem seguido no meio alternativo desde então, salvo uma participação especial aqui e ali, como na Revista Mundo dos Super-Heróis #06 (Editora Europa), ou no Almanaque MINO (Editora Riso). Curiosamente o traço original da personagem seguia a linha do cartum mas foi com um traço vintage que a personagem ganhou força, inspirado nos trabalhos de CC Beck, Joe Shuster, Al Plastino, Kurt Schaffenberg, Alex Schomburg, Dick Sprang e outros Gigantes das Histórias em Quadrinhos.

Nesta aventura, no estilo Invictus (antiga revista da Ebal que trazia parcerias entre heróis), temos a participação da Enfermeira Secreta, ou War Nurse, que ao pé da letra seria a Enfermeira de Guerra, mas aqui optei por uma nomenclatura que desse mais abrangência à heroína para que ela pudesse se encaixar bem em aventuras fora do cenário da Segunda Grande Guerra). A personagem, atualmente em domínio público, Pat Parker (criada por Howard Reed & Jill Elgin) é uma enfermeira britânica, atlética e com vasto conhecimento técnico-científico que usa seus talentos para combater os nazistas da segunda grande guerra. Na aventura Ataque Furtivo, Carol Rosas menciona Pat como uma velha amiga da escola, no entanto fica subentendido serem muito próximas.

O vilão da história é um caso à parte. Ele deveria ser um personagem descartável, tanto que em nenhuma página seu nome é sequer citado, funcionando apenas como causador do problema que uniria as duas heroínas. O inusitado ocorreu depois que a aventura foi publicada, vários leitores do Manicomics (fanzine bastante popular, três vezes vencedor do Troféu HQMix) escreveram pedindo mais informações sobre o personagem misterioso. Uma coisa que eu sabia sobre ele é que se tratava de um Espião de uma Nação Inimiga...E isso foi o suficiente para batizá-lo:"O Espião da Nação Inimiga". De coadjuvante descartável o personagem foi alçado a um dos mais constantes vilões da Mulher-Estupenda dividindo espaço com outro implacável inimigo da heroína, o cientista maluco Doutor Diávolo.

A aventura menciona o Repórter Esso, testemunha ocular da história, e tem alguns outros elementos datados que convidam o leitor a uma jornada que contém, além do aspecto óbvio do entretenimento, elementos bem particulares dos anos de 1930 a 1950.

Obrigado por acompanhar nossa jornada, espero que tenha feito uma boa viagem. Se você apreciou este pequeno conto pode encontrar outras aventuras da Professorinha Estupenda neste LINK.

http://laboratorioespacial.blogspot.com/p/quadrinhos.html

http://www.hqbrasil.xyz/gibiteca/A%20Mulher%20Estupenda/