quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

GALEP - 100 anos do criador gráfico de TEX !















SUCESSO EDITORIAL
 
Antes de falar de Aurelio Galleppini, seu traço e seu legado vamos usar um pouco deste espaço para conceituar o termo "sucesso editorial" pois isto é fundamental para entender o legado de Galep. Para alguns autores, conseguir publicar sua história já é um sucesso editorial, para outros no entanto, uma publicação que promova vendas suficientes para agradar sua casa editorial constitui o tal "sucesso". O personagem Tex, um western made in Itália, foi criado em 1948 e possui aventuras novas publicadas todos os meses desde então. Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, Espanha, França, Finlândia, Grécia, Holanda, República Tcheca, Rússia, Suécia e Turquia estão entre as dezenas de países que publicaram o cowboy italiano. Só no Brasil são mais de 10 revistas com aventuras de TEX em periodicidades as mais diversas, de mensais a anuais. Dito isto, constatamos que é plenamente possível traduzir o conceito de sucesso editorial em uma só palavra: TEX !


AURELIO GALLEPPINI

Nasceu em 1917 em Casale de Pari, uma vila na província de Grosseto, região da Toscana. Após mudar-se com a família para a Sardenha, cresceu fascinado pelos filmes e publicações temáticas do Velho Oeste Americano e ao mesmo tempo cercado de artes literárias e pintura, tendo convivido com o Professor e Poeta Marcello Serra e com o famoso retratista Fantini de quem aprendeu várias técnicas de modo informal. Encorajado por estes mestres/amigos Galep construiu seu conhecimento à partir dos fundamentos básicos e a prática intensa o fez evoluir muito rapidamente. Numa tentativa de publicar alguma de suas artes enviava material para vários jornais oferecendo-se inclusive para produzir sem remuneração. Aos 18 anos consegue colaborar com uma produtora de desenhos animados da Alemanha. Mais tarde Galep seria acusado, por causa desse trabalho, de colaborar com o regime Nazi/Facista, mas na verdade tratava-se de adaptações de João e Maria, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Guliver. Fruto dessas correspondencias, além do trabalho com animação, veio o convite para ilustrar contos de fadas e produzir capas para o semanário Mondo Fanciullo.
















De 1937 a 1939, em Milão começa a produzir quadrinhos para a Editora Mondadori (uma editora grande e tradicional da Itália). Ilustra contos e produz capas para o suplemento juvenil do jornal Marc'Aurelio ao mesmo tempo em que realiza ilustrações e capas para o suplemento feminino 'Modelina', do jornal  Il Mattino Ilustratto, uma espécie de Saturday Evening Post da Itália. A curiosidade é que todas as publicações de Galleppini até então tinham sido em traço mais cartunizado e as editoras passaram a requisitar um traço mais realista de acordo com o que era feito nos quadrinhos americanos da época. Sua base acadêmica e o método de desenhar de memória ajudaram muito neste momento. Galep chegou a dizer tempos depois que "Eles estavam procurando desenhos realistas nos moldes dos que estavam chegando à Itália naquele momento. Eu não havia visto os quadrinhos e minha referência eram os desenhos de cartum. Como eram muitos elementos e detalhes a serem inseridos , acabei inventando tudo: armas, trajes, cavalos, paisagens. Desenhei os índios lembrando dos filmes de Tom Mix".

Em 1940, Aurelio Galleppini muda-se para Florença e começa a trabalhar para a Casa Editorial Nerbini com a revista L'Avventuroso. Além de desenhar quadrinhos, contos ilustrados e passa também a escrever vários roteiros e argumentos. Neste mesmo período passa assinar como Galep. Em idade de alistamento militar, servindo numa base em Bresso, Milão, a sorte fez com que o desenhista fosse escalado para trabalhos de escritório e nas folgas continuava a desenhar usando uma placa de madeira que apoiava no guidão de algum caminhão para ter um bom ângulo de olhar e traço. Durante todo o tempo mantinha contato com os editores e roteiristas, que a esta altura haviam se tornado amigos. Os superiores na Base Aérea arrumavam-lhe trabalhos extras com boa remuneração. Neste meio tempo produziu as artes de "As Pérolas do Mar de Omã", com texto do seu amigo roteirista Federico Pedrocchi. Seu trabalho na base e a proximidade com equipamentos e armamentos fez com que a qualidade de referências atingisse um nível de excelência que chamou a atenção dos editores abrindo novas portas para a arte de Galep. Com a entrada da Itália na Segunda Guerra Galep passou a servir na cidade em que morava com os pais Cagliari. A colaboração com o amigo Pedrocchi encerrou-se dramaticamente com sua morte trágica, metralhado durante um combate.

Após ao fim da segunda guerra mundial, 1945, Galep encontra a cidade de Cagliari duramente atingida por bombardeios, entregue ao caos absoluto. A Itália do pós-guerra passava por uma crise que atingiu a todos. Com os quadrinhos em baixa Galep resolve dedicar-se a pintura. Produz afrescos para Capela de Santa Lucia na localidade de Castello e na Capela do Instituto San Vincenzo di Paoli.
Começa então a lecionar arte em duas escolas e passa a ser conhecido como pintor tendo uma presença vívida no soerguimento cultural da cidade. Algumas artes para publicidade também ajudaram a complementar sua renda neste período.









Ao surgir novos convites para o meio editorial em 1947 fez ilustrações para obras famosas como: Os três Mosqueteiros, O Homem da Máscara de Ferro, As mil e uma noites e As Aventuras do Barão de Munchhausen. A Editora Nerbini o encarrega de produzir aventuras de Pinóquio e Mandrake, já por volta de 1948.


Neste ano de 48 Galep, junto de Giovanni Luiggi Bonelli, cria o "Olho Sombrio" (Occhio Cupo em italiano) um espadachim mascarado na época das Grandes Navegações às voltas com duques gananciosos, escaramuças com piratas, mosqueteiros etc. O trabalho principal da dupla era justamente o Occhio Cupo, onde Gian Luigi esmerava-se no roteiro e Galep colocava toda sua energia e detalhismo a serviço de materializar a história no nível dos maiores clássicos dos quadrinhos já produzidos. E de fato a arte de Galep nos cenários e personagens históricos dão um brilho especial àquelas páginas. Como forma de complementar sua renda a dupla desenvolveu uma aventura de faroeste despretenciosa onde Galep fazia uso de um traço mais rápido — tanto que as produzia à noite após o expediente diurno com o Occhio Cupo.












Entretanto, a resposta de público para aquelas páginas menos complexas ambientadas no bom e velho Oeste foi surpreendente. O sucesso de TEX e sua repercussão o tornaram prioridade para a dupla, e Galep passou a dedicar-se integralmente ao personagem até seus últimos dias de vida. Todas as capas até a Edição 400 foram feitas por Galep, além de posters, e material extra e, obviamente muitas, muitas aventuras em quadrinhos.

Falecido em 10 de março de 1994, Aurelio Galleppini em meio a seu extenso legado artístico foi o criador gráfico de Tex Willer, um personagem que representa a justiça, coragem e autodeterminação, um personagem inspirador para seus fãs, um ícone dos quadrinhos mundiais e na Itália, uma verdadeira instituição, tão representativo quanto o Coliseu, a Pizza ou as gôndolas de Veneza.

CURIOSIDADES SOBRE GALEP

—Galep colecionava trens em miniatura e montava verdadeiras mini-cidades ao entorno de suas ferrovias.
—Colecionava armas e réplicas que certamente ajudavam como referência na execução de muitos trabalhos.
—Galep era também artesão e criava, ele mesmo, réplicas de armas e miniaturas de veículos, barcos, diligências etc.
—Galep fazia as contas do mês e dos itens que comprava usando como medida páginas de quadrinhos ou seja, ele avaliava tudo em termos de quantas páginas de Tex ele precisava fazer para pagar isto ou aquilo.
—Aurelio Galleppini e Jack Kirby (famoso autor de quadrinhos norte-americano co-criador de Capitao América,  Thor, X-Men, Hulk e outros) nasceram ambos no dia 28 de Agosto de 2017, ou seja: mesmo dia, mês e ano.
—A cidade de Cagliari ergueu uma estátua em homenagem a Galep por sua influencia na vida cultural da cidade no período pós segunda guerra mundial.



TEX WILLER

 Ken Willer administrava ao lado dos filhos Tex e Sam um pequeno rancho no sul do Texas onde criava bois até ser cruelmente assassinado por ladrões de gado que fugiram na direção da fronteira. Motivado pelo desejo de vingança Tex Willer parte no encalço dos criminosos determinado a vingar-se. Após cruzar a fronteira do México e realizar sua vendetta o jovem vaqueiro deixa a Fazenda aos cuidados do irmão e junta-se ao circo de Rodeio.

Tudo ia bem para o Campeão de Rodeio Tex Willer até que seu irmão é assassinado e mais uma vez sua sede de justiça o coloca contra um rico empresário, um xerife corrupto e sua gangue. Ao final da escaramuça Tex é tido como fora-da-Lei. Nas aventuras subsequentes ele torna-se guia do exército, depois Ranger do Texas, ganhando um aliado na figura de Kit Carson. Torna-se amigo dos Navajos, desposando a filha do Chefe e em seguida tornando-se ele mesmo o Chefe dos Navajos, por quem é chamado de Águia da Noite. Lilyth (também chamada de Lírio Branco), sua esposa, falece após contrair tifo por meio de um lote de cobertas contaminadas vendidas aos navajos por um bando de criminosos. Mais uma vez Tex Willer retoma à trilha da vingança e elimina um a um os malfeitores.

Em uma vida tão conturbada e tão cheia de reviravoltas, Tex Willer nunca deixou de lado sua obstinação e sua sede de justiça, alguns dos elementos que integram sua personalidade forte junto de uma sinceridade quase grosseira.

Segundo aponta jocosamente o colecionador Sylvio Amarante: "Tex e seus Pards (Jack Tigre, Kit Carson e Kit Willer) juntos já foram responsáveis por mais mortes que a Guerra do Vietnã". Certamente todos malfeitores que tiveram um merecido fim. Retrato de um senso de justiça compartilhado por todos os seus roteiristas na  Sergio Bonelli Editore.

O FORMATO E A NARRATIVA DE TEX


As aventuras do Ranger mais famoso da Itália foram publicadas inicialmente no formato de TIRAS. Com o propósito de baratear os custos de impressão as tiras eram impressas em formato talão de cheques, para ser mais exato: 17 x 8cm com 32 páginas de aventura + capas. A exemplo dos filmes seriados das matinês (como Johnny MacBrown, Ken Maynard ou Buck Jones) a aventura terminava com um gancho para a próxima edição.

http://berkaalfumetti.blogspot.com.br/2010/07/tex-willer-no-1-il-totem-misterioso.html


Em termos de narrativa visual as histórias de Tex sempre foram muito objetivas, sem imagens desnecessárias, sem enfeites, sem repetições de painéis, sem efeitos narrativos ou transições de quadro incomuns. De fato, as transições de quadro em sua maioria são de ação-pra-ação, tema-pra-tema e cena-para-cena. Ou seja transições claras, objetivas e de compreensão imediata.Tudo isso fruto da linguagem das tiras. Quando Tex passou a ser publicado em formato revista acabou mantendo esse estilo narrativo que se tornou um padrão para o personagem. Os requadros possuem um formato rígido, alterando-se muito raramente quando se trata de uma narrativa em flashback ou algo do tipo. Não existem Fullpages (Onde o Quadrinho ocupa a página inteira) ou Sprad pages (Páginas duplas com uma só imagem gigante), não existem requadros tortos, inclinados ou com efeitos nas bordas. E as influencias dos quadrinhos japoneses passam ao largo da narrativa visual de Tex.














O uso da cor na casa Bonelli sempre foi reservado a momentos especialíssimos como os números 100, 200 ou 300 e eventualmente uma ou outra edição também com caráter de exceção. Até hoje os exemplares coloridos de Tex constituem uma cepa editorialmente distinta e sempre com um indiscutível nível de sofisticação.

Em termos de roteiro as histórias sempre foram tratadas como verdadeiros romances gráficos mas repletos de aventura. Personagens críveis, coesão histórica, conflitos cativantes, ação cinematográfica, cenários quase tangíveis, tudo fruto de uma bela sintonia entre roteiro e arte. Obras assim merecem ser conhecidas e celebrações como centenários ou cinquentenários são uma ótima oportunidade para atrair novos leitores e apresentar-lhes universos fantásticos como este Velho Oeste de TEX.


"Nunca desanimei por não ter recursos para frequentar uma escola de artes; o melhor professor para aqueles que desejam se aperfeiçoar no desenho é a natureza." 
Aurelio Galleppini 














 Referências usadas para esta matéria + Links + Curiosidades + Assuntos correlatos:
L'Intrepido (wikipedia)
Marc'Aurelio (wikipedia)
L'Aventuroso (wikipedia)
L'Avventuroso e le sue reincarnazioni
Enrico Ceccarelli - O Mandrake Italiano
Entrevista com Galep (em Italiano)
Biografia de Galep no UBC Fumetti (em italiano)
Biografia de Galep na Wikivisually
Biografia de Galep na Wikipedia
Biografia de Galep  na Wikipedia Italiana
Biografia de Federico Pedrocchi  (wikipedia italiana)
Federico Pedrocchi (Fumetti Org)
Biografia di Galep in Legendo Tex Willer 
Tex WIller Wikiwand
I Conquistatori d'Oceani 

Os Roteiros Desenhados de GL Bonelli
Pinturas Sacras de Galep 
Viva Galep
Cagliari homenageia Galep
O Kit Carson da Vida Real
Download (Tex Edição Histórica #47: O Passado de TEX)
Tex no Youtube - Vingança com Dinamite
Galep e as Capas de Tex 
Tex - Sergio Bonelli Editore
Collana del TEX - Il Totem Misterioso (formato original , texto em Italiano)
Collana del TEX - capas da serie 1
Cronologia Essencial de TEX (anos 40/50)
Uma Breve História de Quadrinhos & Velho Oeste 
Este artigo do Laboratório Espacial mostra um panorama do surgimento do gênero Western desde as Dime Novels até sua chegada aos Quadrinhos. Com direito a várias referências históricas e listagem de títulos e personagens que marcaram época.



http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/06/uma-breve-historia-de-quadrinhos-velho.html
http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/08/tex-em-ponto-de-bala.html


http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/p/quadrinhos.html


Um comentário:

  1. Meu Amigo Ficou Excelente seu Artigo, Muito, Muito bom, Parabéns nós Fãs do Eterno Criador Gráfico de Tex Agradecemos!

    ResponderExcluir