segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Surfista Prateado: O Herói Filósofo ! (por Gian Danton & JJ Marreiro)




Uma das inovações da Marvel era o fato de que vilões poderiam se regenerar e se transformar em heróis, o que de fato, combinava com a proposta de realismo das histórias. A espiã Viúva Negra e o Gavião Arqueiro são exemplos disso, mas o vilão-herói mais famoso da editora seria o Surfista Prateado, um personagem tão bom que virou cult, ganhando a simpatia dos setores mais intelectualizados da população. Afinal, o surfista era um herói filósofo.

O surfista surgiu na revista Fantastic Four 48, em 1966, no arco conhecido como Trilogia de Galactus. Stan Lee escreveu uma sinopse sobre um ser super-poderoso que vinha à Terra para sugar a energia do planeta e deu para Jack Kirby desenhar. Quando Jack trouxe as páginas para que Lee colocasse os textos e diálogos, havia uma novidade ali, um personagem que não aparecia na sinopse original. Ele justificou dizendo que um ser tão poderoso quanto Galactus deveria ter um arauto, que procurasse mundos a serem devorados. Stan Lee adorou a ideia e o visual do personagem, que parecia ter uma postura nobre: "Quando chegou a hora de estabelecer o seu padrão de discurso, comecei a imaginar de que forma um apóstolo das estrelas se expressaria. Parecia haver uma aura biblicamente pura no nosso Surfista Prateado, algo altruísta e magnificamente inocente".

Ao final da trilogia, a editora começou a receber cartas de fãs pedindo uma revista daquele novo personagem, mas Stan Lee e Jack Kirby estavam muito ocupados para pegar mais essa empreitada. Quando Roy Thomas entrou na Marvel como assistente editorial, Lee se viu com tempo para se dedicar ao novo projeto. A revista estreou em 1968 e foi, aos poucos, contando a história do amargurado herói.











Assim, o Surfista é Norrin Radd, um jovem cientista do planeta Zenn-La que aceita tornar-se arauto de Galactus afim de que ele poupasse sua terra natal. Ao se voltar contra seu mestre quando ele tentava devorar a Terra, Galactus condena-o a ficar eternamente preso ao nosso planeta. Isso para ele é uma tortura dupla, pois ele não pode voltar ao seu planeta natal, nem rever sua amada Shalla bal. Além disso, vindo de um local mais avançado eticamente e tendo uma alma extremamente nobre, ele sofre ao ser obrigado a conviver com os ambiciosos humanos, que o caçam por ser diferente.

As aventuras do Surfista permitiram a Stan Lee exercitar o lado humano de seus roteiros ao trabalhar com um personagem angustiado. Para desenhar as histórias ele chamou John Buscema, que era muito influenciado por Jack Kirby, mas tinha uma melhor capacidade para mostrar dramas humanos.



Os monólogos angustiados do protagonista, geralmente no início das histórias tornaram-se a marca da série. Como esse, publicado no número 6 da revista: "Até quando devo continuar aprisionado no selvagem planeta Terra? Não! Este não pode ser meu destino eterno! Não foi para isso que renunciei ao meu mundo, minha vida e meu amor! Por certo, em todo o universo não pode haver ironia mais cruel do destino! Eu, que detenho um poder além da compreensão de qualquer ser humano... estou fadado a viver confinado e sem esperanças... tal qual o mais frágil dos animais! Aqui eu sou odiado... e temido... pelos mesmos seres que meu coração só deseja ajudar! Meu coração! Eu disse... coração? Como poderia ser... se não tenho mais coração? Afinal, eu o abandonei no planeta Zenn-la... a inúmeras galáxias de distância... com aquela a quem amarei para sempre! Zenn-la... onde meu mundo começa e termina... onde eu deixei minha amada Shalla Bal!".

A revista era avançada demais para uma época em que predominavam heróis violentos e fez pouco sucesso, durando poucos números, mas ganhou fãs fervorosos.

Nos anos 1980 o herói virou cult ao ser citado pelo personagem Richard Gere no filme A Força do amor, refilmagem de Acossado, de Godard. Desde então, críticos e fãs redescobriram o personagem, que acabou sendo a grande estrela do segundo filme do Quarteto Fantástico.


Surfista Prateado, a animação (1998):
Após ter participado, através dos tempos, como convidado de episódios dos desenhos animados de Quarteto Fantástico e Homem-Aranha o Arauto de Galactus ganhou em 1998 seu próprio programa. O traço calcado no estilo forte e "rude" de Jack Kirby aliado ao uso extensivo de computação gráfica renderam muitas críticas. Por um lado a arte de Kirby não é palatável para audiências incautas, por outro a inserção de computação gráfica parece provocar uma "quebra" no deleite visual do traço de Kirby. A forma como a história do herói é construída, sua personalidade, seus aliados e vilões, a trama como um todo não possuem os mesmos batentes de compreensão e fluem ajudando inclusive a suplantar eventuais desconfortos visuais para civis e kirbyans. Há de se lamentar que a série veiculada pela Fox Kids tenha tido apenas uma temporada. Visivelmente o personagem renderia facilmente 8 temporadas repletas de ação, conspirações e reflexões.


Surfista Prateado no Cinema (2007):
Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado é o filme que apresenta o Surfista Prateado ao universo dos civis. Bem construído com uma voz profunda (voz de Lawrence Fishburne e personificação de Doug Jones) e com um razoável (não excelente) aspecto visual, o herói espelha sua trajetória nos quadrinhos do Quarteto surgindo como uma terrível e enigmática ameaça e ganhando humanidade aos poucos, até revelar um lado heroico. A falta de coragem (ou de recursos) da Direção do Filme deixaram ausente o que poderia ter sido a salvação desta franquia nos cinemas: Galactus. Mostrado vergonhosamente como um indiscernível vulto fumacento, o Devorador de Mundos provocou na audiência a expectativa de um retorno mais digno noutra produção. Apesar de ter uma Sue Richards Latina e um Tocha Humana supervalorizado, o filme como um todo não é um desperdício total, afinal de contas o Surfista Prateado está lá.

MAIS:
Surfista Prateado (1998) série completa

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2018/02/surfando-entre-as-estrelas-por-jj.html
 http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

JJ Marreiro no Estande da Caixa Cultural (SANA FEST 2017)












Pode-se dizer que os primeiros registros históricos da caricatura são os estudos de Leonardo Da Vinci de 1490, sobre fisionomia, o termo Caricatura, no entanto, surgiu em 1646 para nomear a arte satírica  de Agostino Carracci. Caricatura vem do termo italiano "caricare", em português: carregar, por carga, exagerar. Deste modo fica fácil entender por que os desenhos de caricatura possuem traços exagerados. Para mim, não no papel de teórico, mas de artista, uma caricatura é uma transformação da pessoa em desenho — seja com um tratamento mais cartunizado, mais anatômico ou influenciado pelo mangá. Assim, a caricatura usada ou não para o humor possui múltiplas funções e uma das mais agradáveis para os artistas é ver a alegria das pessoas quando se veem transformadas em desenho.  

Foi essa alegria que vi no Estande da Caixa Cultural Fortaleza durante os três dias de SANA FEST 2017. A equipe coordenada por Joana Feitosa (da Produtora In.Promo) fez do Estande da Caixa Cultural Fortaleza um dos mais badalados e movimentados do evento. A turma não interrompeu a animação nem quando por alguns segundos o Centro de Eventos sofreu uma queda de energia. Games, brincadeiras, música, desenho atiçaram a curiosidade do público para os projetos da Caixa Cultural que já começará  janeiro de 2018 com uma movimentada programação.













Produzi caricaturas de muitas pessoas legais num pique acelerado no qual consegui um recorde pessoal de desenhar algumas caricaturas numa média de uma a cada 2min30seg, segundo cronometrou Diego Fontenele, hoster do estande. No terceiro dia cheguei a fazer 30 caricaturas. Enquanto acontecia a "sessão desenho" era possível perceber a empolgação das pessoas e ver o quanto estavam se divertindo com o Sana Fest. E entre as diversas coisas legais que aprendi com toda essa turma boa foi que uma despedida fica muito mais legal quando a palavra que a gente escuta é um "até logo".

http://jjmarreiro.blogspot.com.br/2013/11/jj-marreiro-profile.html

JJ Marreiro na Programação Caixa Cultural Janeiro de 2018
OFICINA COMO FAZER QUADRINHOS E MANGÁS!
27 e 28/Jan/2017 - Dás 14h às 18h
Faixa etária: 10 a 14 anos (15 vagas)
Inscrições:23 a 25 de janeiro
LOCAL:
Av.Pessoa Anta, 287
Praia de Iracema, Fortaleza-CE
Fone: (085) 3453-2770
e-mail: caixacultural.ce@caixa.gov.br

JJ Marreiro
contato: jjmarreiro@gmail.com


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

De Dennis Oliveira: WEEKLY COMICS !



Dennis Oliveira é editor, ilustrador, escritor, publicitário entre outras categorias multi-tarefas. Dennis é também colaborador do Laboratório Espacial e Campeão Absoluto do nosso selo no Social Comics.

O novo desafio abraçado pelo artista está disponível no Tumblr, uma série de quadrinhos com heróis uniformizados. A publicação tem a proposta se ser semanal, daí o título "Weekly Comics". Esta é uma ótima chance pra quem não está no Social Comics acompanhar a potência do trabalho de Dennis Oliveira. Para não perder o bonde, clique no banner abaixo (ou neste link), ponha nos favoritos e mergulhe na ação e aventura:
 https://weekly-web-comics.tumblr.com/post/168432648591/semana-02-a-ca%C3%A7ada-do-anjo-das-sombras

Dennis produziu recentemente uma HQ com o Elfo-Bárbaro Zohrn, criação de JJ Marreiro disponível aqui mesmo no laboratório Espacial.

https://weekly-web-comics.tumblr.com/post/168432648591/semana-02-a-ca%C3%A7ada-do-anjo-das-sombras

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fighting American: O soldado nunca esquecido!
















Após a segunda Guerra já no início dos anos de 1950, o Capitão América havia retornado às bancas pela editora Atlas (um dos nomes antigos da Marvel) sem os criadores Kirby e Simon. A dupla que neste período estava emplacando vários sucessos e possuía certo respaldo editorial resolveu dar uma resposta a esse "retorno" do Capitão América lançando um personagem nos mesmos moldes com o propósito de , segundo Joe Simon: mostrar ao Capitão América como um verdadeiro Capitão América deveria ser!" A preocupação inicial da dupla era como trazer à tona este personagem sem ser implicado judicialmente por isto. Preocupação que foi atenuada quando o personagem, em suas aventuras, começou a ganhar personalidade própria e distanciar-se de seu referencial.

Com o fim da segunda-guerra mundial (em 1945) os anos seguintes viram surgir uma polarização de interesses entre os países mais poderosos da época, a União Soviética e os Estados Unidos. O Comunismo tornou-se na América o grande mal a ser combatido. Inicialmente apresentado como um personagem denso e sério, o Fighting America foi ganhando leveza, e o motivo foi claramente exposto por Jack Kirby: "Estávamos de saco cheio de heróis sérios!". A caça aos comunistas na América era uma agenda política do Senador Joseph McCarthy e logo algumas pessoas perceberam o clima de paranóia no ar , com inocentes sendo acusados levianamente e contínuas situações de abuso de poder que não mostravam nenhum critério objetivo. A "caça aos comunistas" estava
transformando a liberdade da América em um show de hipocrisia. Isso influenciou diretamente a mudança de clima nas aventuras do novo herói patriótico de Kirby & Simon. Em 1974, numa palestra na NY Comic Art Convention Joe Simon chegou a dizer que o Fighting American não era exatamente uma cópia do Capitão América, mas uma criação que refletia aquele período McCartista de "caça às bruxas".

Em sua origem (claramente adaptada do Capitão América) o frágil e franzino Nelson Flagg presencia a morte do robusto e bem apessoado irmão, Johnny Flagg, um apresentador de TV assassinado por comunistas radicais. O corpo do falecido é aprimorado num experimento científico para adquirir capacidades atléticas sobre-humanas e a consciência do fracote Nelson é transferida para o novo e poderoso corpo. Mesmo partindo de uma origem, digamos... tétrica, as histórias seguintes são muito divertidas e repletas da energia cinética de Kirby. Os textos, embora claramente anti-comunistas não levavam o inimigo (nem o herói) tão à sério.

As vendas iam bem, mas Kirby & Simon queriam dedicar-se a produções mais rentáveis. "Nós estávamos fazendo muita grana com outras coisas...o Figting American não estava vendendo um milhão de cópias por mês. Vendia bem, mas não era uma grande venda, hoje em dia seria" Joe Simon se referia ao fato de que as tiragens dos anos 50 eram muito maiores que as de hoje. Uma venda mediana da época seria um estouro atualmente.
O novo herói banderoso de Kirby-Simon estreou bimestralmente pela Prize Group (em maio de 1954) e durou somente 7 edições. Em 1966 ganhou uma reedição pela Harvey Comics que incluía material não publicado anteriormente e o mesmo aconteceu em 1989 numa edição Herdcover (Capa dura) publicada pela Marvel. Em 1994 foi a vez da DC Comics por as mãos no Fighting American, sob a forma de uma minissérie de 6 edições com o texto de Dave Rawson e Pat McGreal e arte de Greg LaRocque. O personagem ganhava ali uma reformulação para os anos 90... bem, uma das.


Após uma breve participação no evento editorial 'Heroes Reborn', Rob Liefeld que havia sido responsável pelas HQs do Capitão América, anuncia o lançamento de um novo personagem: Agent American. Ameaçado pela Marvel por conta das semelhanças com o Capitão América, Liefeld assina contrato com Joe Simon e o espólio de Kirby para a produção de uma nova série do Fighting American (cujo visual é quase igual ao do Agent American de Liefeld). A revista sai em 1997 com um boom de críticas...mas também de vendas. Fato: Os fãs adoram polêmicas.

Agosto de 2017, ano do centenário de Kirby, uma nova versão do Lutador Americano chega aos leitores pela Titan Comics. Desta vez calcado nas hqs originais de Kirby & Simon usando inclusive vilões e coadjuvantes. Muotas capas alternativas, imagens de impacto como manda a cartilha do quadrinho moderninho de heróis, mas também muita irreverência e crítica como manda a cartilha kirby-simon para o herói.

O Fighting American pode nunca ter tido o sucesso de público de seu predecessor, mas acabou se tornando uma das mais curiosas, revisitadas e polêmicas criações de Kirby e Simon.













Muito mais coisa clicando nos banners:
http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html
http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-o-rei-do-quarto-mundo-por.html http://www.fgdq.com.br/os-mundos-de-jack-kirby-um-tributo-ao-rei-dos-quadrinhos/


















sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

100 anos de Will Eisner na Gibiteca de Fortaleza














Os anos de 1930 viram os quadrinhos migrarem dos jornais para as revistas, os anos de 1940 viram o gênero dos heróis uniformizados se tornarem um frisson, os anos 50 foram tomados por quadrinhos de cowboy, romance, sci-fi, crime e terror e logo em seguida a América e o mundo começou a caçar os quadrinhos e lhe imputar má fama, os anos 60/70 chegaram com uma renovação e necessidade de liberdade de temas e gêneros brindo alas para uma respeitabilidade que cresceria dos anos 80 em diante. Will Eisner foi protagonista e testemunha de toda essa História das Histórias em Quadrinhos. Criou personagens, explorou formatos, popularizou temáticas, ampliou os horizontes e foi um dos mais importantes elementos para que os Quadrinhos adquirissem o status de Arte.

É este Mestre, este GIGANTE dos quadrinhos que tem seu centenário celebrado na Gibiteca de Fortaleza. A palestra de JJ Marreiro (escritor, cartunista, ilustrador, Editor do Laboratório Espacial) vai abordar a história e evolução do trabalho de Eisner seguida de um bate-papo sobre a influencia e sobre o legado deste grande autor da Arte Sequencial.

Serviço:
100 anos de Will Eisner
Palestra e bate-papo com JJ Marreiro
Sábado, 16/12/2017 - 14h
Av. da Universidade, 2572
anexo da Biblioteca Dolor Barreira


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

GALEP - 100 anos do criador gráfico de TEX !















SUCESSO EDITORIAL
 
Antes de falar de Aurelio Galleppini, seu traço e seu legado vamos usar um pouco deste espaço para conceituar o termo "sucesso editorial" pois isto é fundamental para entender o legado de Galep. Para alguns autores, conseguir publicar sua história já é um sucesso editorial, para outros no entanto, uma publicação que promova vendas suficientes para agradar sua casa editorial constitui o tal "sucesso". O personagem Tex, um western made in Itália, foi criado em 1948 e possui aventuras novas publicadas todos os meses desde então. Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Estados Unidos, Espanha, França, Finlândia, Grécia, Holanda, República Tcheca, Rússia, Suécia e Turquia estão entre as dezenas de países que publicaram o cowboy italiano. Só no Brasil são mais de 10 revistas com aventuras de TEX em periodicidades as mais diversas, de mensais a anuais. Dito isto, constatamos que é plenamente possível traduzir o conceito de sucesso editorial em uma só palavra: TEX !


AURELIO GALLEPPINI

Nasceu em 1917 na vila Casale de Pari, uma vila na província de Grosseto, região da Toscana. Após mudar-se com a família para a Sardenha, cresceu fascinado pelos filmes e publicações temáticas do Velho Oeste Americano e ao mesmo tempo cercado de artes literárias e pintura, tendo convivido com o Professor e Poeta Marcello Serra e com o famoso retratista Fantini de quem aprendeu várias técnicas de modo informal. Encorajado por estes mestres/amigos Galep construiu seu conhecimento à partir dos fundamentos básicos e a prática intensa o fez evoluir muito rapidamente. Numa tentativa de publicar alguma de suas artes enviava material para vários jornais oferecendo-se inclusive para produzir sem remuneração. Aos 18 anos consegue colaborar com uma produtora de desenhos animados da Alemanha. Mais tarde Galep seria acusado, por causa desse trabalho, de colaborar com o regime Nazi/Facista, mas na verdade tratava-se de adaptações de João e Maria, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Guliver. Fruto dessas correspondencias, além do trabalho com animação, veio o convite para ilustrar contos de fadas e produzir capas para o semanário Mondo Fanciullo.
















De 1937 a 1939, em Milão começa a produzir quadrinhos para a Editora Mondadori (uma editora grande e tradicional da Itália). Ilustra contos e produz capas para o suplemento juvenil do jornal Marc'Aurelio ao mesmo tempo em que realiza ilustrações e capas para o suplemento feminino 'Modelina', do jornal  Il Mattino Ilustratto, uma espécie de Saturday Evening Post da Itália. A curiosidade é que todas as publicações de Galleppini até então tinham sido em traço mais cartunizado e as editoras passaram a requisitar um traço mais realista de acordo com o que era feito nos quadrinhos americanos da épica. Sua base acadêmica e o método de desenhar de memória ajudaram muito neste momento. Galep chegou a dizer tempos depois que "Eles estavam procurando desenhos realistas nos moldes dos que estavam chegando à Itália naquele momento. Eu não havia visto os quadrinhos e minha referência eram os desenhos de cartum. Como eram muitos elementos e detalhes a serem inseridos , acabei inventando tudo: armas, trajes, cavalos, paisagens. Desenhei os índios lembrando dos filmes de Tom Mix".

Em 1940, Aurelio Galleppini muda-se para Florença e começa a trabalhar para a Casa Editorial Nerbini com a revista L'Avventuroso. Além de desenhar quadrinhos, contos ilustrados e passa também a escrever vários roteiros e argumentos. Neste mesmo período passa assinar como Galep. Em idade de alistamento militar, servindo numa base em Bresso, Milão, a sorte fez com que o desenhista fosse escalado para trabalhos de escritório e nas folgas continuava a desenhar usando uma placa de madeira que apoiava no guidão de algum caminhão para ter um bom ângulo de olhar e traço. Durante todo o tempo mantinha contato com os editores e roteiristas, que a esta altura haviam se tornado amigos. Os superiores na Base Aérea arrumavam-lhe trabalhos extras com boa remuneração. Neste meio tempo produziu as artes de "As Pérolas do Mar de Omã", com texto do seu amigo roteirista Federico Pedrocchi. Seu trabalho na base e a proximidade com equipamentos e armamentos fez com que a qualidade de referências atingisse um nível de excelência que chamou a atenção dos editores abrindo novas portas para a arte de Galep. Com a entrada da Itália na Segunda Guerra Galep passou a servir na cidade em que morava com os pais Cagliari. A colaboração com o amigo Pedrocchi encerrou-se dramaticamente com sua morte trágica, metralhado durante um combate.

Após ao fim da segunda guerra mundial, 1945, Galep encontra a cidade de Cagliari duramente atingida por bombardeios, entregue ao caos absoluto. A Itália do pós-guerra passava por uma crise que atingiu a todos. Com os quadrinhos em baixa Galep resolve dedicar-se a pintura. Produz afrescos para Capela de Santa Lucia na localidade de Castello e na Capela do Instituto San Vincenzo di Paoli.
Começa então a lecionar arte em duas escolas e passa a ser conhecido como pintor tendo uma presença vívida no soerguimento cultural da cidade. Algumas artes para publicidade também ajudaram a complementar sua renda neste período.









Ao surgir novos convites para o meio editorial em 1947 fez ilustrações para obras famosas como: Os três Mosqueteiros, O Homem da Máscara de Ferro, As mil e uma noites e As Aventuras do Barão de Munchhausen. A Editora Nerbini o encarrega de produzir aventuras de Pinóquio e Mandrake, já por volta de 1948.


Neste ano de 48 Galep, junto de Giovanni Luiggi Bonelli, cria o "Olho Sombrio" (Occhio Cupo em italiano) um espadachim mascarado na época das Grandes Navegações às voltas com duques gananciosos, escaramuças com piratas, mosqueteiros etc. O trabalho principal da dupla era justamente o Occhio Cupo, onde Gian Luigi esmerava-se no roteiro e Galep colocava toda sua energia e detalhismo a serviço de materializar a história no nível dos maiores clássicos dos quadrinhos já produzidos. E de fato a arte de Galep nos cenários e personagens históricos dão um brilho especial àquelas páginas. Como forma de complementar sua renda a dupla desenvolveu uma aventura de faroeste despretenciosa onde Galep fazia uso de um traço mais rápido — tanto que as produzia à noite após o expediente diurno com o Occhio Cupo.












Entretanto, a resposta de público para aquelas páginas menos complexas ambientadas no bom e velho Oeste foi surpreendente. O sucesso de TEX e sua repercussão o tornaram prioridade para a dupla, e Galep passou a dedicar-se integralmente ao personagem até seus últimos dias de vida. Todas as capas até a Edição 400 foram feitas por Galep, além de posters, e material extra e, obviamente muitas, muitas aventuras em quadrinhos.

Falecido em 10 de março de 1994, Aurelio Galleppini em meio a seu extenso legado artístico foi o criador gráfico de Tex Willer, um personagem que representa a justiça, coragem e autodeterminação, um personagem inspirador para seus fãs, um ícone dos quadrinhos mundiais e na Itália, uma verdadeira instituição, tão representativo quanto o Coliseu, a Pizza ou as gôndolas de Veneza.

CURIOSIDADES SOBRE GALEP

—Galep colecionava trens em miniatura e montava verdadeiras mini-cidades ao entorno de suas ferrovias.
—Colecionava armas e réplicas que certamente ajudavam como referência na execução de muitos trabalhos.
—Galep era também artesão e criava, ele mesmo, réplicas de armas e miniaturas de veículos, barcos, diligências etc.
—Galep fazia as contas do mês e dos itens que comprava usando como medida páginas de quadrinhos ou seja, ele avaliava tudo em termos de quantas páginas de Tex ele precisava fazer para pagar isto ou aquilo.
—Aurelio Galleppini e Jack Kirby (famoso autor de quadrinhos norte-americano co-criador de Capitao América,  Thor, X-Men, Hulk e outros) nasceram ambos no dia 28 de Agosto de 2017, ou seja: mesmo dia, mês e ano.
—A cidade de Cagliari ergueu uma estátua em homenagem a Galep por sua influencia na vida cultural da cidade no período pós segunda guerra mundial.



TEX WILLER

 Ken Willer administrava ao lado dos filhos Tex e Sam um pequeno rancho no sul do Texas onde criava bois até ser cruelmente assassinado por ladrões de gado que fugiram na direção da fronteira. Motivado pelo desejo de vingança Tex Willer parte no encalço dos criminosos determinado a vingar-se. Após cruzar a fronteira do México e realizar sua vendetta o jovem vaqueiro deixa a Fazenda aos cuidados do irmão e junta-se ao circo de Rodeio.

Tudo ia bem para o Campeão de Rodeio Tex Willer até que seu irmão é assassinado e mais uma vez sua sede de justiça o coloca contra um rico empresário, um xerife corrupto e sua gangue. Ao final da escaramuça Tex é tido como fora-da-Lei. Nas aventuras subsequentes ele torna-se guia do exército, depois Ranger do Texas, ganhando um aliado na figura de Kit Carson. Torna-se amigo dos Navajos, desposando a filha do Chefe e em seguida tornando-se ele mesmo o Chefe dos Navajos, por quem é chamado de Águia da Noite. Lilyth (também chamada de Lírio Branco), sua esposa, falece após contrair tifo por meio de um lote de cobertas contaminadas vendidas aos navajos por um bando de criminosos. Mais uma vez Tex Willer retoma à trilha da vingança e elimina um a um os malfeitores.

Em uma vida tão conturbada e tão cheia de reviravoltas, Tex Willer nunca deixou de lado sua obstinação e sua sede de justiça, alguns dos elementos que integram sua personalidade forte junto de uma sinceridade quase grosseira.

Segundo aponta jocosamente o colecionador Sylvio Amarante: "Tex e seus Pards (Jack Tigre, Kit Carson e Kit Willer) juntos já foram responsáveis por mais mortes que a Guerra do Vietnã". Certamente todos malfeitores que tiveram um merecido fim. Retrato de um senso de justiça compartilhado por todos os seus roteiristas na  Sergio Bonelli Editore.

O FORMATO E A NARRATIVA DE TEX


As aventuras do Ranger mais famoso da Itália foram publicadas inicialmente no formato de TIRAS. Com o propósito de baratear os custos de impressão as tiras eram impressas em formato talão de cheques, para ser mais exato: 17 x 8cm com 32 páginas de aventura + capas. A exemplo dos filmes seriados das matinês (como Johnny MacBrown, Ken Maynard ou Buck Jones) a aventura terminava com um gancho para a próxima edição.

http://berkaalfumetti.blogspot.com.br/2010/07/tex-willer-no-1-il-totem-misterioso.html


Em termos de narrativa visual as histórias de Tex sempre foram muito objetivas, sem imagens desnecessárias, sem enfeites, sem repetições de painéis, sem efeitos narrativos ou transições de quadro incomuns. De fato, as transições de quadro em sua maioria são de ação-pra-ação, tema-pra-tema e cena-para-cena. Ou seja transições claras, objetivas e de compreensão imediata.Tudo isso fruto da linguagem das tiras. Quando Tex passou a ser publicado em formato revista acabou mantendo esse estilo narrativo que se tornou um padrão para o personagem. Os requadros possuem um formato rígido, alterando-se muito raramente quando se trata de uma narrativa em flashback ou algo do tipo. Não existem Fullpages (Onde o Quadrinho ocupa a página inteira) ou Sprad pages (Páginas duplas com uma só imagem gigante), não existem requadros tortos, inclinados ou com efeitos nas bordas. E as influencias dos quadrinhos japoneses passam ao largo da narrativa visual de Tex.














O uso da cor na casa Bonelli sempre foi reservado a momentos especialíssimos como os números 100, 200 ou 300 e eventualmente uma ou outra edição também com caráter de exceção. Até hoje os exemplares coloridos de Tex constituem uma cepa editorialmente distinta e sempre com um indiscutível nível de sofisticação.

Em termos de roteiro as histórias sempre foram tratadas como verdadeiros romances gráficos mas repletos de aventura. Personagens críveis, coesão histórica, conflitos cativantes, ação cinematográfica, cenários quase tangíveis, tudo fruto de uma bela sintonia entre roteiro e arte. Obras assim merecem ser conhecidas e celebrações como centenários ou cinquentenários são uma ótima oportunidade para atrair novos leitores e apresentar-lhes universos fantásticos como este Velho Oeste de TEX.


"Nunca desanimei por não ter recursos para frequentar uma escola de artes; o melhor professor para aqueles que desejam se aperfeiçoar no desenho é a natureza." 
Aurelio Galleppini 














 Referências usadas para esta matéria + Links + Curiosidades + Assuntos correlatos:
L'Intrepido (wikipedia)
Marc'Aurelio (wikipedia)
L'Aventuroso (wikipedia)
L'Avventuroso e le sue reincarnazioni
Enrico Ceccarelli - O Mandrake Italiano
Entrevista com Galep (em Italiano)
Biografia de Galep no UBC Fumetti (em italiano)
Biografia de Galep na Wikivisually
Biografia de Galep na Wikipedia
Biografia de Galep  na Wikipedia Italiana
Biografia de Federico Pedrocchi  (wikipedia italiana)
Federico Pedrocchi (Fumetti Org)
Biografia di Galep in Legendo Tex Willer 
Tex WIller Wikiwand
I Conquistatori d'Oceani 

Os Roteiros Desenhados de GL Bonelli
Pinturas Sacras de Galep 
Viva Galep
Cagliari homenageia Galep
O Kit Carson da Vida Real
Download (Tex Edição Histórica #47: O Passado de TEX)
Tex no Youtube - Vingança com Dinamite
Galep e as Capas de Tex 
Tex - Sergio Bonelli Editore
Collana del TEX - Il Totem Misterioso (formato original , texto em Italiano)
Collana del TEX - capas da serie 1
Cronologia Essencial de TEX (anos 40/50)
Uma Breve História de Quadrinhos & Velho Oeste 
Este artigo do Laboratório Espacial mostra um panorama do surgimento do gênero Western desde as Dime Novels até sua chegada aos Quadrinhos. Com direito a várias referências históricas e listagem de títulos e personagens que marcaram época.



http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/06/uma-breve-historia-de-quadrinhos-velho.html
http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/08/tex-em-ponto-de-bala.html