Nos anos de 1930, assim como as ondas do rádio, as tiras de jornal
levavam aos lares as mais variadas narrativas ficcionais. Tiradas
humorísticas com família e crianças, investigações policiais, westerns,
ficção científica e aventuras fantásticas eram os contextos mais
atrativos para os leitores. Neste cenário surgiu Mandrake (criação
de Lee Falk e Phill Davis), um elegante mágico capaz de feitos incríveis
(raramente explicados). E na tira de quadrinhos de Mandrake
(distribuída pelo King Features Syndicate) o mundo foi apresentado a seu
incrível parceiro: Lothar, descrito diversas vezes como "o homem mais
forte do mundo". Este incrível parceiro do mago levantava Elefantes com
uma só mão por pura diversão. Lothar ao lado de Mandrake enfrentou
desafios dignos dos super-heróis, antes do termo "super-herói" sequer
existir. No telefilme de 1954 o excelente ator Woody Strode deu vida ao
personagem materializando seu incrível porte e elegância.
Nos anos de 1940 surgiu All-Negro Comics.
Uma revista em quadrinhos produzida e editada por autores
afro-americanos. Um dos personagens desta publicação poderia ser
considerado precursor do Pantera Negra (1966) um herói que embora sem um traje
especial era chamado de Homem-Leão.
Em 1965, estreia pela Dell Comics
o que talvez seja o primeiro título de um Herói Negro em quadrinhos:
Lobo. Exceto pela sua origem afro-descentente Lobo não tinha nada
diferente da maioria dos mocinhos de western. Exímio atirador, cavaleiro
e lutador, o herói estava sempre disposto a reparar uma injustiça
usando suas diversas habilidades entre as quais a sagacidade.
Certamente
há uma infinidade de heróis negros que precisam ser descobertos e
listados. A recém adquirida fama internacional do Pantera Negra da
Marvel (criação de Jack Kirby e Stan Lee) de certo modo é um estímulo para os leitores começarem a buscar e
valorizar também esses outros personagens.
Pós-modernidade: a época das incertezas. O estado atual da
arte onde tendências, estilos e gêneros mesclam-se à mídia, efemeridade,
complexidade e significados infinitos que podem não levar a lugar algum. A
perda de referenciais, a resignificação destes referenciais ou a negação da
existência do referencial. Pós-moderno é o mundo exatamente do modo como não o
conseguimos explicar.
Criado de uma experiência de brainstorm saído da mente de nove
diferentes autores (escritores e artistas—ver box), o Gralha nasceu como
materialização de elementos da cultura curitibana. A ave símbolo da cidade
dá-lhe nome e suas aventuras se passam num futuro não muito distante. Prédios
cada vez mais altos onde os espaços reduzidos impulsionam a vida vegetal para o
topo destes arranha-céus.
Gustavo Gomes, devidamente aliterado, descobre um uniforme e duas orbes (as gemas do poder) que lhe conferem poderes sobre-humanos. O personagem teria sido criado em homenagem a um personagem obscuro dos anos 40
chamado Capitão Gralha, um factóide
criado para dar um molho especial ao seu background.
A revista especial Metal Pesado de 1997 homenageava os 15
anos da Gibiteca de Curitiba estampando o Gralha em sua capa e trazendo uma
matéria sobre Francisco Iwerten,
suposto criador do Capitão Gralha. Anos depois com o boca-a-boca elevando o
fictício autor à categoria de Mestre do Quadrinho Nacional, os autores vieram
a publico explicar que Iwerten e o Capitão Gralha eram de fato um artifício
criativo que acabou se tornando lenda urbana.
Hoje virou moda reunir vários artistas para desenvolver diferentes
concepções visuais (ou versões) à partir de um personagem para homenageá-lo. Entretanto
o Gralha já nasceu deste modo, pioneiro, materializado em diferentes traços com
múltiplas interpretações de seu histórico e ambiente. Suas tiras foram
publicadas por dois anos no jornal A Gazeta do Povo e compiladas no belo álbum O GRALHA em 2001. Enquanto a fama do
personagem se espalhava e ele ganhava versões em filmes curta-metragens
dirigidos por Tako X, um de seus
criadores, a possibilidade de um retorno aos quadrinhos tomava forma.
O lançamento do álbum O
GRALHA: Tão banal quanto original ocorreu durante a Gibicon de 2014 junto
com exposições, palestras e o lançamento de uma estátua de luxo do personagem
em padrões de qualidade dignos das principais empresas de colecionáveis do
mundo. Lançada em edição limitada a estatueta do Gralha vem numa embalagem
especial com material exclusivo incluindo uma HQ inédita do personagem.
O livro Tão banal quanto original chega pela
Editora Quadrinhópole, retomando o
personagem com características multifacetadas, vários artistas, vários traços,
adicionados desta vez a uma trama que costura sub-repticiamente todas as HQs. A
sensação é de se estar vendo uma temporada completa de uma série de TV dessas
modernas com revira-voltas e revelações. Não há necessidade de informações
prévias sobre o personagem para apreciar o exemplar que tem ares de
auto-contido, mas encerra com um sabor de “quero mais”.
E esse quero mais pode vir dos outros projetos relacionados
ao personagem, como o álbum do Capitão Gralha (Editora Quadrinhópole) ou o Artbook do Gralha, um livro ricamente ilustrado contando em imagens e textos a evolução
do personagens desde seu surgimento e hqs nunca antes publicadas.
Por ser um material de alto nível sua produção está sendo levada a cabo num
projeto financiado via crowdfunding. Abaixo você pode ver o vídeo e saber como se tornar um apoiador do projeto.
O Gralha, mantendo suas raízes culturais e sua
ligação íntima com Curitiba, é um desses maravilhosos personagens que consegue
ser regional e ao mesmo tempo universal. Um dos mais importantes heróis dos
quadrinhos brasileiros, leitura obrigatória para apreciadores dos heróis
uniformizados e uma leitura divertida para neófilos. Para apoiar O GRALHA-ARTBOOK no catarse clique aqui.
O Laboratório Espacial agradece a Alessandro Dutra, Antonio Eder, Augusto Freitas, Edson Kohatsu, Gian Danton, José Aguiar, Luciano Lagares, Nilson Muller e Tako X sem os quais essa matéria seria impossível.