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sábado, 4 de julho de 2020

SURFISTA PRATEADO: Amargo Regresso !















Na década de 1980, Stan Lee já estava aposentado dos quadrinhos. Mas voltava de tempos em tempos para escrever uma história de seu personagem predileto. E qual era seu personagem predileto? O Surfista Prateado.

Em 1982 ele e John Byrne (que a esta altura já era uma estrela de quadrinhos graças à sua passagem pelos X-men) se uniram para produzir uma revista única do herói, que acabava funcionando como canto do cisne para o personagem e fechava algumas pontas soltas.

Na HQ "Amargo Regresso", o Surfista, graças a uma invenção de Reed Richards, consegue finalmente vencer a barreira de Galactus e voltar para seu planeta Zenn-la. Mas há uma ressalva: se voltar para a Terra, ele ficará eternamente preso aqui.



Chegando lá ele descobre que seu planeta está arruinado graças à vingança de Galactus por seu arauto ter se voltado contra ele na Terra.

E Shalla Ball, sua amada, não está lá. Tudo leva a crer que uma garota que ele encontrou em uma das histórias da série clássica na década de 1960, é na verdade ela, hipnotizada por Mefisto.



É uma história deliciosa em todos os sentidos, num perfeito equilíbrio dos elementos que fizeram do Surfista um clássico. Há o herói amargurado e filosófico, as viradas no roteiro, surpreendentes, mas absolutamente plausíveis. E o texto de Lee parece ter melhorado com o tempo, tornando-se mais poético. Os desenhos de Byrne (que é co-autor da história), funcionam bem, embora a arte-final de Tom Palmer nem sempre consiga captar a sutileza que a história exija.

O grande momento da história é o final, triste, mas poético. Seria o final perfeito caso essa fosse a última história do personagem.



Aqui (no Brasil) essa história foi publicada na revista Heróis da TV 70 e foi um dos números que mais marcaram os fãs, em especial graças a essa HQ. Em tempo: a Abril descartou a capa original e usou uma imagem interna da história como capa. Ao meu ver um a decisão acertada. (Nota do Editor: Nos Estados Unidos, a Aventura "Escape-- to Terror" foi publicada no one shot Silver Surver #01, 1982).

(Nota do Editor: Para encerrar,uma curiosidade. Foi desta edição que saiu a arte de capa do LP (e posterior CD) do Guitarrista Joe Satriani. Os direitos de uso foram negociados entre o programador visual do disco e a Marvel, o autor do desenho, John Byrne, nunca viu um tostão do uso comercial desta arte).



MAIS:

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/12/surfista-prateado-o-heroi-filosofo-por.html

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Surfando entre as Estrelas (por JJ Marreiro)





O SURF
A origem do Surf (que vem da palavra surface) está relacionada aos antigos povos polinésios (no Sul do  Pacífico) e aos peruanos (nas Américas). A prática já foi ligada historicamente a atividades místicas, ao culto do mar e rituais de ordem espiritual, tornando-se importante elemento para a vida social, enquanto promovia a conexão do homem com a natureza e propunha desafios de auto-superação. Tudo isso muito antes de se tornar um esporte mundialmente famoso.
O Surf requer mais que o equilíbrio sobre a prancha, requer a percepção do ritmo do mar, da velocidade do vento e das ondas, requer conhecimentos sensíveis sobre o entorno e sobre o seu eu, seu próprio ritmo, suas próprias capacidades físicas, o reconhecimento de seus próprios limites e a audácia de testar esses limites.

A PRATA
Elemento químico de símbolo Ag, que vem de Argentum, palavra latina derivada de um termo em sânscrito que significa branco e brilhante. A prata está ligada à cadeia simbólica da lua e da água (que por conseguinte está quitessencialmente ligada ao surf). Ao contrário do vigor masculino do ouro, a prata possui uma conexão com o que é feminino, sutil e com a dignidade da realeza e à purificação divina. Contraditoriamente a prata, que representa a riqueza provoca a cobiça humana o que lhe confere uma dinâmica dentro de seu próprio significado.











Um Surfista Prateado
Ao propor um arauto para Galactus, o Devorador de Mundos, Jack Kirby veio com a ideia de um explorador espacial seminu que navegava as ondas de energias cósmicas, ventos solares, gases, campos magnéticos, plasmas e radiações espaciais sobre uma placa de bordas arredondadas. Enquanto sua nudez demonstra fragilidade, a cor prateada de todo seu corpo traz consigo uma pureza que reflete sua alma — que não é vista a priori dado o aspecto alienígena que isso lhe confere.
A angústia que o Surfista Prateado traz consigo, isolado de sua terra natal, removido do convívio de sua amada, forçado a encontrar mundos inteiros que serão destruídos para saciar a fome de seu Mestre, reflete bem a dicotomia da própria prata, que sob alguns formatos torna-se tóxica (como o pó de prata) e sob outros (nitrato de prata) possuem usos terapêuticos.

Enquanto o traço de Jack Kirby apresenta um Surfista robusto e audacioso, John Buscema o retrata de modo delicado, quase feminino. Notadamente nesta fase vemos a contradição entre os impressionantes níveis de poder do herói — capaz de ombrear os deuses mais poderosos de Asgard— e sua profunda angústia e tormento.

O gênero dos super-heróis tem sido associado a personagens bidimensionais, sem profundidade e sem drama, está é uma leitura comum e uma percepção válida em uma primeira análise de seus aspectos gerais, no entanto, desde o Spirit de Will Eisner, passando por Homem-Aranha de Lee & Ditko e culminando com Watchmen de Allan Moore os Super-Heróis (ou heróis uniformizados) tem mostrado que sua profundidade depende não do seu caráter constitutivo, mas da abordagem de seus autores. O Surfista Prateado trás para o gênero uma riqueza temática e uma dicotomia que representavam muito bem os agitados anos da década de 1960 com suas lutas por direitos civis, suas guerras, movimentos populares e regimes de exceção. A amplitude de tramas e conflitos que se abrem ante o Surfista Prateado são de certo modo um oceano , ou melhor, um universo de possibilidades para personagem, autores e leitores.
 










MAIS:

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Surfista Prateado: O Herói Filósofo ! (por Gian Danton & JJ Marreiro)




Uma das inovações da Marvel era o fato de que vilões poderiam se regenerar e se transformar em heróis, o que de fato, combinava com a proposta de realismo das histórias. A espiã Viúva Negra e o Gavião Arqueiro são exemplos disso, mas o vilão-herói mais famoso da editora seria o Surfista Prateado, um personagem tão bom que virou cult, ganhando a simpatia dos setores mais intelectualizados da população. Afinal, o surfista era um herói filósofo.

O surfista surgiu na revista Fantastic Four 48, em 1966, no arco conhecido como Trilogia de Galactus. Stan Lee escreveu uma sinopse sobre um ser super-poderoso que vinha à Terra para sugar a energia do planeta e deu para Jack Kirby desenhar. Quando Jack trouxe as páginas para que Lee colocasse os textos e diálogos, havia uma novidade ali, um personagem que não aparecia na sinopse original. Ele justificou dizendo que um ser tão poderoso quanto Galactus deveria ter um arauto, que procurasse mundos a serem devorados. Stan Lee adorou a ideia e o visual do personagem, que parecia ter uma postura nobre: "Quando chegou a hora de estabelecer o seu padrão de discurso, comecei a imaginar de que forma um apóstolo das estrelas se expressaria. Parecia haver uma aura biblicamente pura no nosso Surfista Prateado, algo altruísta e magnificamente inocente".

Ao final da trilogia, a editora começou a receber cartas de fãs pedindo uma revista daquele novo personagem, mas Stan Lee e Jack Kirby estavam muito ocupados para pegar mais essa empreitada. Quando Roy Thomas entrou na Marvel como assistente editorial, Lee se viu com tempo para se dedicar ao novo projeto. A revista estreou em 1968 e foi, aos poucos, contando a história do amargurado herói.











Assim, o Surfista é Norrin Radd, um jovem cientista do planeta Zenn-La que aceita tornar-se arauto de Galactus afim de que ele poupasse sua terra natal. Ao se voltar contra seu mestre quando ele tentava devorar a Terra, Galactus condena-o a ficar eternamente preso ao nosso planeta. Isso para ele é uma tortura dupla, pois ele não pode voltar ao seu planeta natal, nem rever sua amada Shalla bal. Além disso, vindo de um local mais avançado eticamente e tendo uma alma extremamente nobre, ele sofre ao ser obrigado a conviver com os ambiciosos humanos, que o caçam por ser diferente.

As aventuras do Surfista permitiram a Stan Lee exercitar o lado humano de seus roteiros ao trabalhar com um personagem angustiado. Para desenhar as histórias ele chamou John Buscema, que era muito influenciado por Jack Kirby, mas tinha uma melhor capacidade para mostrar dramas humanos.



Os monólogos angustiados do protagonista, geralmente no início das histórias tornaram-se a marca da série. Como esse, publicado no número 6 da revista: "Até quando devo continuar aprisionado no selvagem planeta Terra? Não! Este não pode ser meu destino eterno! Não foi para isso que renunciei ao meu mundo, minha vida e meu amor! Por certo, em todo o universo não pode haver ironia mais cruel do destino! Eu, que detenho um poder além da compreensão de qualquer ser humano... estou fadado a viver confinado e sem esperanças... tal qual o mais frágil dos animais! Aqui eu sou odiado... e temido... pelos mesmos seres que meu coração só deseja ajudar! Meu coração! Eu disse... coração? Como poderia ser... se não tenho mais coração? Afinal, eu o abandonei no planeta Zenn-la... a inúmeras galáxias de distância... com aquela a quem amarei para sempre! Zenn-la... onde meu mundo começa e termina... onde eu deixei minha amada Shalla Bal!".

A revista era avançada demais para uma época em que predominavam heróis violentos e fez pouco sucesso, durando poucos números, mas ganhou fãs fervorosos.

Nos anos 1980 o herói virou cult ao ser citado pelo personagem Richard Gere no filme A Força do amor, refilmagem de Acossado, de Godard. Desde então, críticos e fãs redescobriram o personagem, que acabou sendo a grande estrela do segundo filme do Quarteto Fantástico.


Surfista Prateado, a animação (1998):
Após ter participado, através dos tempos, como convidado de episódios dos desenhos animados de Quarteto Fantástico e Homem-Aranha o Arauto de Galactus ganhou em 1998 seu próprio programa. O traço calcado no estilo forte e "rude" de Jack Kirby aliado ao uso extensivo de computação gráfica renderam muitas críticas. Por um lado a arte de Kirby não é palatável para audiências incautas, por outro a inserção de computação gráfica parece provocar uma "quebra" no deleite visual do traço de Kirby. A forma como a história do herói é construída, sua personalidade, seus aliados e vilões, a trama como um todo não possuem os mesmos batentes de compreensão e fluem ajudando inclusive a suplantar eventuais desconfortos visuais para civis e kirbyans. Há de se lamentar que a série veiculada pela Fox Kids tenha tido apenas uma temporada. Visivelmente o personagem renderia facilmente 8 temporadas repletas de ação, conspirações e reflexões.


Surfista Prateado no Cinema (2007):
Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado é o filme que apresenta o Surfista Prateado ao universo dos civis. Bem construído com uma voz profunda (voz de Lawrence Fishburne e personificação de Doug Jones) e com um razoável (não excelente) aspecto visual, o herói espelha sua trajetória nos quadrinhos do Quarteto surgindo como uma terrível e enigmática ameaça e ganhando humanidade aos poucos, até revelar um lado heroico. A falta de coragem (ou de recursos) da Direção do Filme deixaram ausente o que poderia ter sido a salvação desta franquia nos cinemas: Galactus. Mostrado vergonhosamente como um indiscernível vulto fumacento, o Devorador de Mundos provocou na audiência a expectativa de um retorno mais digno noutra produção. Apesar de ter uma Sue Richards Latina e um Tocha Humana supervalorizado, o filme como um todo não é um desperdício total, afinal de contas o Surfista Prateado está lá.

MAIS:
Surfista Prateado (1998) série completa

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2018/02/surfando-entre-as-estrelas-por-jj.html
 http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html