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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O Bárbaro e a MARVEL ! por Gian Danton


 

No final da década de 1960 os super-heróis começaram a entrar em crise. O final da era de prata dos quadrinhos foi marcado pelo desaparecimento de várias editoras e títulos. Na década de 1970 começaria a chamada era de bronze. Foi um período em que os editores se viram obrigados a testar novos formatos e gêneros na tentativa de manter o interesse do leitor. Um personagem que encarnou essa época foi Conan, o bárbaro. 


Conan, criado pelo escritor texano Robert E. Howard, surgiu na história The Phenix on the sword, publicada na revista pulp Weird Tales, em 1932. Na década de 1960 suas histórias foram republicadas, chamando a atenção de Roy Thomas, o roteirista mais importante da Marvel, depois de Stan Lee. Os dois resolveram que aquilo daria um bom quadrinho. O dono da Marvel, Martin Goodman, não gostava do personagem. Afinal, ele era amoral, vingativo, ladrão e adorava uma bebedeira e uma orgia. Para quem achava que os quadrinhos eram lidos só por crianças, esse parecia um personagem que não iria agradar. Stan Lee, no entanto, convenceu-o a publicar. 

 


Para a desenhar a história foi designado um ilustrador inglês, novo no meio, chamado Barry Smith. Ele fez um Conan com visual art-nouveau que chamou a atenção do público. Apesar do sucesso, Smith acabou abandonando os quadrinhos para se dedicar a outras variantes artísticas. Para substituí-lo foi chamado um veterano da Marvel, John Buscema, que mudou o personagem, tornando-o mais másculo e mais bárbaro, definindo o que seria o visual do personagem dali para a frente. Quando a revista deixou de ser colorida e passou a ser publicada no formato magazine (maior que o dos gibis), as vendas estouraram, pois a revista alcançou um público bem mais adulto, que já tinha desistido de ler super-heróis. 


O sucesso de Conan também esteve ligado aos ótimos arte-finalistas de origem filipina, como Ernie Chan e Alfredo Alcala, que distanciavam o traço de Buscema daquele que ele usava nos super-heróis.
O sucesso absoluto do personagem fez com que surgissem vários outros personagens nos mesmos moldes. No começo, a própria Marvel aproveitou para publicar outros personagens criados por Robert E. Howard, como Kull, o conquistador e Sonja, a guerreira, que fez muito sucesso no traço de Frank Thorne. Tratava-se de uma mulher que só podia entregar sua virgindade ao homem que a vencesse em combate. Como isso nunca acontecia, a história se equilibrava entre a sensualidade e a ação. 


A DC entrou na onda com O Guerreiro (Warlord), criação de Mike Grell, sobre um piloto da força aérea norte-americana que vai parar no centro da terra, onde existe um mundo dominado pela espada e pela magia. 


Na década de 1980 Conan ganhou uma versão cinematográfica, estrelada por Arnold Schwazenegger, o primeiro sucesso cinematográfico do ator. (Nota do Editor: Scharzennegger encarna o cimério em 1982 e em 1984. A ideia inicial era fazer uma franquia nos moldes de 007, no entanto o herói só retornou aos cinemas em 2011,vivido desta vez por Jason Momoa).

 

Conan fez um sucesso extremo no Brasil, onde continuou popular mesmo quando a Marvel não estava mais produzindo novas histórias. Por causa disso, as editoras (inicialmente a Abril e depois a Mythos) continuaram a revista apenas com republicações. Depois o personagem foi adquirido, nos EUA, pela editora Dark Horse (ficando por lá de 2003 a 2018), nesse período a fase assinada pelo roteirista Kurt Buziek e pelo desenhista Cary Nord conseguiu agradar aos velhos fãs. (Nota do Editor: Conan retorna à Marvel em 2019 em quadrinhos de esmerado cuidado gráfico e editorial. O objetivo parecia ser o de superar visualmente o material produzido pela Dark Horse ao mesmo tempo em que se apresentava uma maior refinamento visual, houve uma retomada de um character design mais alinhado com o de John Buscema. Os contos originais de Conan entraram em domínio público em vários países da Europa e no Brasil. O Direito Patrimonial , ou seja o direito de editar/adaptar os contos está em domínio público nestes países. Isto significa que as histórias podem ser reimpressas e reeditadas livremente sem no entanto contar na capa o nome CONAN, que segue como marca registrada da Conan Properties International).



sábado, 4 de julho de 2020

SURFISTA PRATEADO: Amargo Regresso !















Na década de 1980, Stan Lee já estava aposentado dos quadrinhos. Mas voltava de tempos em tempos para escrever uma história de seu personagem predileto. E qual era seu personagem predileto? O Surfista Prateado.

Em 1982 ele e John Byrne (que a esta altura já era uma estrela de quadrinhos graças à sua passagem pelos X-men) se uniram para produzir uma revista única do herói, que acabava funcionando como canto do cisne para o personagem e fechava algumas pontas soltas.

Na HQ "Amargo Regresso", o Surfista, graças a uma invenção de Reed Richards, consegue finalmente vencer a barreira de Galactus e voltar para seu planeta Zenn-la. Mas há uma ressalva: se voltar para a Terra, ele ficará eternamente preso aqui.



Chegando lá ele descobre que seu planeta está arruinado graças à vingança de Galactus por seu arauto ter se voltado contra ele na Terra.

E Shalla Ball, sua amada, não está lá. Tudo leva a crer que uma garota que ele encontrou em uma das histórias da série clássica na década de 1960, é na verdade ela, hipnotizada por Mefisto.



É uma história deliciosa em todos os sentidos, num perfeito equilíbrio dos elementos que fizeram do Surfista um clássico. Há o herói amargurado e filosófico, as viradas no roteiro, surpreendentes, mas absolutamente plausíveis. E o texto de Lee parece ter melhorado com o tempo, tornando-se mais poético. Os desenhos de Byrne (que é co-autor da história), funcionam bem, embora a arte-final de Tom Palmer nem sempre consiga captar a sutileza que a história exija.

O grande momento da história é o final, triste, mas poético. Seria o final perfeito caso essa fosse a última história do personagem.



Aqui (no Brasil) essa história foi publicada na revista Heróis da TV 70 e foi um dos números que mais marcaram os fãs, em especial graças a essa HQ. Em tempo: a Abril descartou a capa original e usou uma imagem interna da história como capa. Ao meu ver um a decisão acertada. (Nota do Editor: Nos Estados Unidos, a Aventura "Escape-- to Terror" foi publicada no one shot Silver Surver #01, 1982).

(Nota do Editor: Para encerrar,uma curiosidade. Foi desta edição que saiu a arte de capa do LP (e posterior CD) do Guitarrista Joe Satriani. Os direitos de uso foram negociados entre o programador visual do disco e a Marvel, o autor do desenho, John Byrne, nunca viu um tostão do uso comercial desta arte).



MAIS:

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/12/surfista-prateado-o-heroi-filosofo-por.html

http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Vingadores: Ultimato ( SEM SPOILERS )



Falar sobre filmes de cultura pop é divertidíssimo, algumas vezes isso constitui um desafio: Como falar de um filme sem soltar spoilers? Fácil: É só falar do filme sem soltar spoilers. Soltar spoilers é uma atitude que estraga a diversão e muitas vezes reflete falta de sensibilidade e falta de respeito. Existem pessoas que não se incomodam com isso, mas a maioria dos comunicadores sérios avisam já no cabeçalho ou no banner de divulgação se há ou não spoilers. Assim, como diz o nosso cabeçalho e nosso banner: Vamos falar do Ultimato SEM SPOILERS!












 A Marvel trouxe para suas produções cinematográficas (MCU-Universo Cinematográfico Marvel) o conceito de universo interligado tão conhecido (e amado) por seus fãs nos quadrinhos. Avengers: END GAME, no Brasil Vingadores ULTIMATO segue o encadeamento lógico visto nesse universo compartilhado (as séries de TV da Marvel teriam ganhado muito se tivessem mantido uma proximidade maior com esse compartilhamento ou se tivessem tido o aconselhamento dos produtores certos). Essa conexão dá credibilidade aos personagens, dá coesão a seu mundo, dá margem a compreensões e alimenta diversas situações emocionais — cobrindo vários aspectos numa escala que vai do riso às lágrimas, passando pela compaixão, inspiração, determinação. Fazendo tudo isso sem apelar para soluções fáceis. Não se trata de um filme perfeito, mas os poucos deslizes e pequenas incongruências estão em patamares aceitáveis se medidos em relação ao nível de diversão proposta.




Uma produção de um tamanho semelhante ao visto em blockbusters como Star Wars e Senhor dos Anéis resulta em cenas tão belamente engendradas que poderia até inaugurar um gênero: Épico de Super-Heróis.

Faz sentido manter-se alerta contra spoilers dada a maneira inteligente como as ações são encadeadas, afinal um dos motivos de ir ao cinema é colocar nas nossas vidas um pouco de emoção escapista e ludicidade. Muito possivelmente os fãs de cinema de ação e fãs de heróis vão ao cinema esperando uma série de coisas, alguns possivelmente mantenham até uma listinha mental. Em Vingadores ULTIMATO, a listinha mental de muita gente deve receber muitos tiques positivos e alguns Plus.




Ficar fora das redes sociais até ter visto o filme é uma postura prudente pois os estraga-prazeres de plantão vão vir com tudo e fatalmente vão tomar blocks e semear discórdias e cultivar inimizades. Como prometido este texto não possui spoilers, mas funciona como termômetro de ânimos, e as lágrimas e risos frouxos que vi na saída do cinema juntamente com rostos deslumbrados são o exato termômetro que indica que o preço do ingresso promoveu uma excelente relação custo-benefício.


Os diretores Joe e Anthony Russo conduzem o filme como Maestros experientes regendo músicos experientes (Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Chris Hemsworh, Mark Ruffalo e demais vingadores retornando confortavelmente a seus papéis). Já que fiz uma metáfora com músicos: a Trilha do Filme (Alan Silvestri) é para colocar na coleção e os efeitos são de nos fazer esquecer que são efeitos. A ação cresce exponencialmente e a trama cheia de pequenas sacadas geniais possivelmente vai colocar este filme na lista TOP 10 de muitos fãs. Aliás, nada no filme é por acaso e certamente é daqueles que se vê várias vezes para “pegar melhor os detalhes”.

Se você não gosta de filmes de ação, de uniformes coloridos, pessoas voando, batalhas épicas, boas pitadas de humor, sensibilidade e emoção, então não precisa ver Vingadores ULTIMATO. Mas se você curte pelo menos três dos itens mencionados acima abra espaço na agenda e veja o quanto antes e neutralize o ataque dos babacas-de-spoiler.

Comente aí o que achou desta Resenha sem Spoilers e diga aí qual seu Vingador Favorito. Obrigado pela visita e aproveite pra dar uma fuçada no nosso blog que tem um monte de coisa divertida por aqui.




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um Punho de Ferro moldado sem Ferro e sem Fogo











Marvel-Netflix dão um basta em Punho de Ferro (E Luke Cage também foi pro saco, mas o papo aqui é sobre Kung Fu). A promessa de que o personagem não morreu pode trazê-lo novamente em aparições especiais ou em aventuras na linha de "Os Defensores". Mas o personagem era ruim? Só funcionava num grupo? O ator era fraco? Veja a seguir:

Primeiro: Um personagem só é ruim se for mal escrito. Ponto. Dito isto a série como um todo não teve bases sólidas, não teve ousadia, se restringiu a copiar porcamente a fórmula testada antes em Demolidor. A Formulinha de escrever os episódios como se fossem pedaços um loooongo filme, apesar de criativa, gera problemas sérios: Não dá unidade aos episódios, vira uma novelinha e dilui o tema em blocos tediosos.

 








Segundo: O personagem só funcionava em grupo? De maneira alguma. Um texto bem amarrado e personagens com motivações críveis e objetivos claros pode ter como foco um só personagem ou um grupo. Não existe essa lenda de que personagem tal só funciona em grupo.

Terceiro: O ator é um profissional que trabalha para dar vida ao texto que recebe. Veja o exemplo do Henry Cavill. Um ator competente, com o visual perfeito para encarnar o Homem de Aço, mas... teve o azar de pegar uma série de textos ruins e filmes sem ímpeto. O mesmo aconteceu com o Punho de Ferro. O personagem ficou confuso durante toda a primeira temporada e na segunda, por insegurança, abre mão de seus poderes no exato momento em que poderia recuperá-los. Finn Jones deu a Daniel Rand a personificação que seu texto pedia, com uma dedicação visível nas cenas de ação e uma imersão crível no caráter emocional, infelizmente o texto pobre com uma estrutura frágil não colaborou. A inserção de Tifoide Mary (vilã do Demolidor) na segunda temporada confirma a falta de criatividade ou a falta de compromisso com o background do Punho de Ferro e sua galeria de vilões.













Uma adaptação requer mudanças principalmente quando não se conta com orçamento milionário — como no cinema. Mas é plenamente possível obter concessões diante de sacadas inteligentes, e isso não significa fugir dos temas. O Dragão que é uma peça importante nos quadrinhos ficou subentendido de modo crível, K'unn L'unn foi abordada de um modo sóbrio, a relação entre Danny Misty e Collen foi bem construída. Mas aqui vale uma crítica às concessões claramente inseridas por "modismo". Danny Rand perdeu o protagonismo da série porque suas ações não eram firmes nem heróicas (culpa do roteiro) e todas as soluções dos conflitos foram redirecionadas às personagens femininas e isso não seria um problema se o protagonista da série não fosse propositalmente apagado diante disto. As personagens femininas da série são ótimas e a gente fica na torcida pela dupla Coleen e Misty reprisarem seus feitos nos quadrinhos. O que precisa ser notado é que um personagem pode brilhar sem que outro seja apagado para que isto ocorra, cedendo ou não a modismos. Ficou claro que os escritores da série sabotaram o personagem: Na primeira temporada Danny Rand participa de uma reunião na empresa onde descobre os lucros absurdos que são gerados com o monopólio de uma patente de medicamentos. A ação do herói de abrir a patente e ajudar as pessoas a terem acesso ao medicamento é duramente criticada e no fim uma ação heróica que refletia a alma do personagem é apagada e esquecida em nome de um "pseudo-realismo" que diminui Daniel Rand como personagem e retira dele uma empatia que estava começando a aparecer. Isso se repete ao longo das duas temporadas. Tudo aquilo que constitui no herói uma força a serviço do bem, uma barreira contra a iniquidade é diminuído, apagado, esquecido.



Quando o Punho de Ferro dos Quadrinhos surgiu havia uma onda de filmes de Artes Marciais no rastro do sucesso de Bruce Lee, que ganhou um contraparte na figura de Shang Chi, O Mestre do Kung Fu. Daniel Rand por outro lado tinha semelhanças inegáveis com o campeão de Karatê Chuck Norris tanto física quanto psicologicamente. Dito isto fica difícil aceitar que o apático personagem na série da Netflix seja de fato o Punho de Ferro.

Os desafios mostrados nos quadrinhos da Marvel tinham muita sintonia com filmes tipo A mão de Ferro de Shaolin, Shaolin contra os 12 homens de Aço e outros. Cenas inteiras pareciam retiradas de filmes de Kung Fu. E aqui é importante frisar: O Punho de Ferro é o Maior Artista Marcial da Marvel (na verdade um dos dois maiores, se vc contar Shang Chi), mesmo assim, na série, vemos a técnica de Danny Rand ser sobrepujada por qualquer coadjuvante ou antagonista ao bel sabor dos roteiristas. Não é difícil concluir, a esta altura que o personagem foi sabotado desde sua primeira temporada (fraquíssima) em favor de outra opção que estava sendo construída nos desejos secretos dos produtores e showrunners. No meio de sabotagens e incompetências o fim da série abre a possibilidade para uma nova leitura do personagem e caso nesta leitura o personagem encontre seu ímpeto, sua autodeterminação e o verdadeiro heroísmo, será um ponto bastante positivo. Mas na opinião deste articulista: Scott Adkins num filme adaptando à risca as primeiras aventuras do herói seria algo no mínimo histórico tanto para a Marvel quanto para os filmes de pancadaria.














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HISTÓRIA:
Criado por Roy Thomas e Gill Kane e. 1974 (na revista Marvel Premiere #15) o personagem surgiu aproveitando a fama dos filmes de Kung Fu que nos anos de 1970 atingiram um auge de popularidade. O jovem Wendel Rand encontra a cidade de K'unn L'unn e salva a vida de seu governante tornando-se seu filho adotivo. Adulto retorna para a América e tem sucesso na vida empresarial. Numa viagem de férias, acompanhado de sua esposa Heather, seu filho Danny e de seu sócio Harold Meatchum, Wendel Rand tenta reencontrar K'unn L'unn, mas é morto por seu sócio. Heather e Danny são cercados por lobos selvagens e a mãe se sacrifica para salvar o garoto que é adotado pelos monges de K'unn L'unn. Treinado nas mais letais formas de artes marciais o jovem Daniel Rand segue o caminho do guerreiro e após uma vida de treinamento árduo se vê ante a provação final: o Desafio do Punho de Ferro. Onde precisa enfrentar um poderoso Dragão milenar e ativar o poder fabuloso dos Punhos de Ferro.


PODERES:
-Daniel Rand evoca os punhos de ferro e é capaz de causar uma enorme destruição com seus socos;
-O Chi do Punho de Ferro é capas de curar ferimentos em si e em outros: veneno, cortes, concussões, contaminação radioativa etc;
-Através da Fusão mental o herói pode compartilhar ou acessar memórias, conhecimento, informações e emoções de outras pessoas;
-Pode armazenar a energia dos ataques que sofre e reutilizar a seu favor;
-Exímio lutador de artes marciais, um dos melhores do mundo. Domina todos os tipos de armas.


LINKS:
Punho de Ferro (wikipedia)
Punhos de Ferro (Protocolos MARVEL)
Conhecendo o Punho de Ferro (Duas Torres)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um Adeus a Stan Lee (por Gian Danton)


Morreu Stan Lee, o homem que mudou o quadrinho, pessoas e o mundo

Sem Stan Lee não existiria Gian Danton.
No final da década de 1950 a grandiosa DC dominava o mercado de quadrinhos quase sozinha. Uma de suas concorrentes era editora pequena, composta apenas de uma sala, um editor e uma secretária. Poucos anos depois, essa editora secundária se tornaria o Davi que iria derrotar o Golias nas vendas e na imaginação do público. 


Stan Lee, o editor da Marvel, era a mente por trás dessa mudança. Junto com Jack Kirby ele criou o Quarteto Fantástico, o grupo de heróis que revolucionaria os quadrinhos com personagens bidimensionais, brigas internas, histórias em continuidade e muita, muita ação.
O método criado por ele (chamado hoje de método Marvel) permitia que artistas como Jack Kirby imprimissem um ritmo, uma agilidade, um movimento que fazia parecer que as histórias do Super-homem aconteciam em câmera lenta. Por outro lado, o texto de Lee humanizava e caracterizava cada personagem. Até mesmo personagens terciários, como o Surfista Prateado, ganhavam um background, uma história de vida, um modo de falar, uma personalidade. 


E Lee fazia questão de colocar créditos nas histórias. Ao contrário da DC, que fazia questão de esconder os nomes dos desenhistas e roteiristas, a Marvel alardeava aos quatro ventos que tinha os melhores artistas e escritores e dava nome a cada um. E mais: seus textos faziam acreditar que a Marvel era um verdadeiro mundo mágico, a casa das ideias e que a produção de quadrinhos eram uma nova forma de arte (Se estivessem vivos, Shakespeare e Michelangelo estariam fazendo quadrinhos, dizia ele). 


Fazer quadrinhos era uma grande aventura!
Como resultado, os leitores começaram a prestar atenção em quem fazia as histórias – e descobriram que havia alguém que escrevia as HQs, os roteiristas. Também como resultado, o público universitário se viu atraído pelos gibis e, com o tempo, isso abriu caminho para todo um campo acadêmico, o de pesquisadores de quadrinhos. 


Como editor, Lee tinha uma máxima, que passou ao seu pupilo Roy Thomas: se uma revista está vendendo bem, deixe o time criativo livre. Isso fez com que a Marvel explodisse em criatividade nos anos 1970, com trabalhos impressionantes como o Dr. Estranho de Steve Englehart e Frank Brunner, que levou a psicodelia do personagem ao seu nível máximo e o texto a um nível poucas vezes alcançado, antes e depois. 


O sucesso da Marvel balançou a DC, fazendo com que ela saísse de seu confortável conservadorismo. Durante anos a Distinta Concorrência, como chamava Stan Lee, fez de tudo para ser tão criativa quanto a Marvel – e conseguiu na década de 1980, quando trabalhos inovadores como os Novos Titãs, Crise nas infinitas terras e as séries autorais Cavaleiro das trevas e Watchmen balançaram a indústria de quadrinhos. 


Eu lia quadrinhos desde pequeno, principalmente quadrinhos infantis como Turma da Mônica e Disney. 


Ali pelos 15 anos eu já tinha me enjoado desse tipo de leitura. Foi quando, numa fila de banco, caiu em minhas mãos um exemplar de Superaventuras Marvel. Eu simplesmente pirei na revista e em especial naquele Doutor Estranho diferente, que flertava com a psicodelia (e que se tornaria por anos meu personagem predileto, ao lado dos X-men). E pirei mais ainda ao ver, nos créditos, o nome de quem fazia as histórias. Sim, cada HQ tinha um desenhista ... e um roteirista! Ali surgiu o sonho de ser roteirista. 


Anos depois, o compadre Joe Bennett me emprestou Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Foi um impacto incomparável, que me fez buscar tudo que achasse escrito por Alan Moore – e fez com que eu aceitasse escrever uma história desenhada pelo compadre, a Floresta Negra.
Se Stan Lee não tivesse transformado a Marvel no que ela se tornou, eu não teria lido aquela Superaventuras Marvel e nunca teria tido o sonho de ser roteirista de quadrinhos. Se não existisse a eterna concorrência com a Marvel, a DC continuaria sendo uma editora conservadora e nunca teria publicado trabalhos tão revolucionários como Monstro do Pântao e Watchmen – e, portanto, eu não teria tido o impulso de começar e o norte do tipo de histórias que queria contar como iria contá-las.
Se não fosse a geração de universitários criada pela Marvel, que a passou a ver os quadrinhos além do preconceito, eu nunca poderia ter escrito meu TCC, minha dissertação e minha tese sobre quadrinhos.
Stan Lee mudou não só a indústria de quadrinhos. Mudou a minha vida e a de muitas outras pessoas. De certa forma, ele mudou o mundo. 


Eu poderia dizer descanse em paz, mas duvido que ele gostaria disso. Deve estar agora agitando as coisas lá no céu dos criadores.


 









IDEIAS DE JECA TATU (blog de Gian Danton)

http://roteiroquadrinhos.blogspot.com/

http://laboratorioespacial.blogspot.com/2010/10/o-astronauta-de-mauricio-de-sousa-por.html


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Marca do Pantera Negra !
















Dez anos depois do início de sua empreitada no cinema, a Marvel lança Pantera Negra e mostra que tem fôlego pra muito mais. Pantera Negra é emblemático em vários aspectos, sobretudo por se tratar de um filme muito bem feito.

O diretor Ryan Coogler (Fruitvale Station) mostra incontestável esmero e passa pelo âmago da questão racial nos EUA, deixando clara sua visão sobre minorias e preconceito, mas com espaço para a reflexão.














Com um elenco composto por atores negros (com poucas exceções) interpretando personagens bem desenvolvidos, a maior virtude do longa reside na sua narrativa direta, assertiva e bem realizada. O mote é fantástico: "devemos construir pontes, não barreiras." 

Pantera Negra é um filme importante dentro do gênero, tanto quanto a própria criação do personagens nas páginas do Quarteto Fantástico em meados da década de 1960 - nova afirmação de um movimento social! A trama apresenta arcos bem estruturados dentro de um tema muito abrangente: Nossas responsabilidades e deveres - para com a família, com a pátria, com o amor, com a cultura... O senso de dever tange a todos os personagens e é exatamente isso que nos palpita a mais plena identificação - ou pelo menos deveria ser assim (lembra do Professor Xavier dizendo que ninguém precisa ser negro pra ser contra o apartheid?).



Pantera Negra não é um filme de negros para negros, mas um filme universal, para todos, com um elenco negro e mulheres fortes em papéis principais (as Amazonas da DC no cinema empalidecem novamente). E aqui a Marvel acerta na quase total ausência do típico humor latente de seus filmes, pois a "seriedade" edifica a nobreza do personagem e sua causa.

Com atuações caprichadas, um roteiro excelente, ação, trilha sonora moderna - "orgânica" e localizada - efeitos competentes e ótimos personagens, o resultado não poderia ser ruim. Advinha quem ganha com isso? Outro destaque: Killmonger é um dos melhores vilões da Marvel dentro de sua fórmula habitual (em que o herói deve vencer a si mesmo inicialmente). Com uma construção psicológica convincente e uma atuação genial de Michael B.Jordan (Creed). 


Impossível terminar de assistir o filme, conferir suas duas cenas pós-credito e não ficar sedento por mais - e isso significa Vingadores Guerra Infinita já em abril (2018)!


 https://weekly-web-comics.tumblr.com/



 
http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/2017/05/jack-kirby-100-anos.html